Para muita gente, usar o transporte público de Curitiba beira uma aventura, pois dependendo da linha e do horário, há demora na espera dos ônibus, carros cheios e sistema de ventilação precário. Isso sem falar no reajuste da tarifa, que passou a custar R$ 2,20.
Muitos precisam enfrentar ‘’esse caos urbano’’ diariamente para chegar ao trabalho. Mas outros utilizam esse próprio caos como forma de ganhar a vida. São os vendedores ambulantes. Dentro dos ônibus e dos terminais é possível comprar cocada, caneta, marcador de livro, bombom, pão de queijo, cigarro, bala, livro infantil e muito mais. Alguns vendem com o discurso de que precisam do dinheiro para ajudar a família ou realizar uma cirurgia. Outros nem desculpa dão e estão ali para ganhar a vida.
V.A.B., 53, vende há dois anos os brigadeiros e beijinhos que faz em casa. São doces grandes, vendidos por R$ 1,50 cada. Ela começa o dia com aproximadamente 40 unidades e raramente volta com algum de volta. A senhora vende os produtos dentro dos biarticulados de Curitiba. A rotina é sempre a mesma: entra no ônibus e passa pela parte de trás do carro oferecendo os doces. O comércio fica apenas nesta parte do ônibus, para que o motorista não a veja e mande parar ou chame um fiscal. Em seguida ela desce do biarticulado e fica dentro do tubo até esperar o próximo ônibus e retomar a venda. ‘’Às vezes dá pra vender dentro do tubo. Alguns cobradores fazem vista grossa para o comércio’’, explica V.A.B..
Com o dinheiro que ganha, aproximadamente R$ 60,00 por dia, ela gasta R$ 17,00 com a compra de material para fazer os doces e mais R$ 2,20 com a passagem que gasta para entrar no ônibus. O que sobra ajuda com os gastos em casa. O marido ganha R$ 600,00 como auxiliar em uma oficina mecânica de radiadores de caminhão. O casal possui três filhos ainda em idade escolar e o dinheiro dos doces ajuda a colocar comida dentro de casa. ‘’O difícil é esconder os brigadeiros das minhas crianças. Mas sempre deixo elas rasparem a panela’’, diz a doceira.
Outra ‘’vendedora sobre rodas’’, A.A.P., 57, não esquenta a barriga no fogão, mas trabalha diariamente oferecendo doces no interior de ônibus e tubos. São saquinhos de balas de goma vendidos dentro de uma cesta de ferro. Ela passa com agilidade entre os passageiros e não fica encabulada mesmo com o olhar reprovador de alguns usuários. ‘’Esse é o meu trabalho. Compra quem quer’’. Tem dias que A.A.P. tem sorte e volta para casa com a cesta vazia. Nesses dias, aproveita para passar no mercado e engorda a dispensa da cozinha. Cada pacote de bala é vendido por R$ 1,00. Ela sai de casa com a cesta contendo 80 unidades. O que ganha na venda do produto é a única fonte de renda na sua casa. A.A.P. possui um filho de 12 anos. O marido foi embora quando estava grávida e até hoje se vira como pode. ‘’No meu último emprego trabalhei em um consultório médico. Mas quando fiquei desempregada tive que apelar para as balinhas. A gente tem que rebolar pra sobreviver’’.

No terminal
‘’Se eu tivesse um local pra alugar por aqui, ia querer. A gente não quer fazer nada ilegal. Eu queria alugar uma banca’’, essa é a opinião de M.P., 23 anos, mãe de dois filhos. Ela frequenta diariamente um terminal de ônibus de Curitiba e passa aproximadamente seis horas por dia vendendo carteiras de cigarro e isqueiros falsificados e sandálias feitas no Nordeste. O cigarro custa R$ 1,10, o isqueiro R$ 1,00 e as sandálias R$ 10,00. ‘’Às vezes dá pra vender por R$ 12,00’’. São vendidas 300 carteiras de cigarro por dia. Essa é a rotina de M.P. há três meses.
Quando a polícia chega, a moça recolhe o material e vai embora. ‘’Não desejo essa vida pra ninguém. Não é legal. Se fosse pra pagar um imposto pra continuar trabalhando aqui, eu pagaria’’. Mesmo assim ela afirma não existir qualquer tipo de propina cobrada por fiscais ou policiais. M.P. afirma que em alguns terminais o policiamento está grande, o que impossibilita o comércio ilegal de produtos. Em outros espaços ainda é possível vender alguma coisa. ‘’Tão falando que vão fechar aqui também. Daí Deus vai preparar outro serviço pra gente’’.

Ao lado do tubo
Há quem aproveite para trabalhar até com quem sai do ônibus. É o caso de Amanda Viana, 17 anos. Diariamente ela vende pão de queijo ao lado de tubos localizados ao longo da Avenida Sete de Setembro. Cada pacote com sete pães custa R$ 1,00 e ela possui clientela fixa. ‘’Geralmente o pessoal sai atrasado e não dá tempo de tomar café da manhã. Então desce do ônibus e já compra o pão de queijo. É prático pra eles’’, explica. São 25 pacotes vendidos diariamente.
Amanda faz parte de uma equipe de vendedores especializada em ficar na saída de tubos apenas para oferecer os pães de queijo. Eles ficam em diversos pontos da cidade onde existe grande concentração de pessoas. Geralmente são nos tubos onde desce maior quantidade de usuários do transporte. (D.C.)

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