A Curitiba que poucos conhecem
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terça-feira, 24 de março de 2009
Thiago Alonso<br> Equipe da Folha 
Nas metrópoles, nos bairros, nas pessoas, são camadas diferentes de vida que vão existindo. Nada é sempre claro e transparente como um raio de sol atravessando um copo dágua. Todos os dias, são várias Curitibas que vão acontecendo em um mesmo momento. Cada observador vai construindo para si a sua imagem da cidade. Mais violenta para uns, moderna para outros ou ainda modelo para terceiros. É tudo isso e nada disso. Sempre ao mesmo tempo.
Nas esquinas e nos olhares, a cidade de cada morador se cruza com a do outro, criando uma teia de pontos de vistas distintos. São cidades invisíveis que vão se desenvolvendo arbitrariamente; são quase dois milhões de Curitibas que coexistem. Uma, no entanto, é a mais invisível de todas: a Curitiba que existe debaixo de nossos pés e olhos.
São quilômetros e mais quilômetros de galerias pluvias, que recebem água das chuvas, dos rios, do homem que lava seu automóvel no sábado de sol. Há ainda os canos da rede de esgoto que levam descargas de vasos sanitários, água misturada com espuma de pasta de dente vinda de bocas com hálito fresco ou o que sobrou da lavagem das panelas de um restaurante chique. Toda essa água suja escoa pelo ralo, viaja pelas profundezas do asfalto e vai parar em estações de tratamento, que devolvem a melhor água possível nas torneiras.
Além do sistema de rede de esgoto ou galerias pluvias, esta terra que tudo dá ainda abriga: cabos de fibra óptica das companhias de telefonia; tubos de gás que levam fogo aos edifícios; estações de energia elétrica que iluminam as noites frias da Rua das Flores e de outros pontos da região central de Curitiba. São dezenas de serviços oferecidos à população por debaixo de tudo.
No subterrâneo da cidade, uma vida que ninguém vê acontece. Uma vida formada por um emaranhado de galerias, canos, tubos, túneis, excrementos, água, baratas, teias de aranha, lixo, sofás e outras coisas inimagináveis. Depois dessa viagem ao centro da terra, só há uma certeza: o chão em que se pisa não é tão sólido quanto se pensa.


