A Curitiba de Alfred Willer
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segunda-feira, 02 de abril de 2007
Fábio Galão<br>Equipe da Folha 
Embora tenha nascido na República Checa, o arquiteto Alfred Willer, de 76 anos, é curitibano como poucos. Seu trabalho, na Companhia de Habitação de Curitiba (Cohab), na Fundação Cultural, como professor na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e no seu escritório de arquitetura, ajudou a modelar importantes mudanças urbanas na capital paranaense nas últimas décadas.
As quatro décadas da atuação profissional de Willer foram relembradas recentemente em uma exposição de fotos realizadas em Curitiba e também por conta do aniversário dos 314 anos da cidade. Ele foi o primeiro diretor-técnico da Cohab da capital. A partir de 1965, a companhia iniciou um projeto inovador de habitação popular.
Na época, a prioridade da prefeitura era fazer desfavelamento. Aproximadamente 2,1 mil famílias residiam em favelas em Curitiba. Elas moravam em regiões insalubres, perigosas, como ao largo do Rio Belém, da linha férrea que ia para Ponta Grossa. Havia residências a meio metro da ferrovia, o que era muito perigoso especialmente para crianças, conta Willer.
Fomos para o Rio de Janeiro, único lugar onde já havia uma Cohab, para visitar a Vila Kennedy. E não gostamos do que vimos. Eram 4 mil casas iguais e as pessoas moravam muito longe do lugar de trabalho. Essa visita foi boa porque aprendemos a evitar problemas, explica o arquiteto.
A Cohab de Curitiba então adotou modelos de moradias de baixa renda inspirados na arquitetura popular dos imigrantes poloneses e ucranianos. Visualmente, eram residências familiares à população das favelas, e eram construtivamente racionais, pois eram baratas e duráveis, diz Willer.
De acordo com o arquiteto, o Banco Nacional da Habitação (BNH) e o governo dos Estados Unidos financiaram essas primeiras moradias. A área escolhida foi um terreno no começo da região onde depois seria estabelecida a Cidade Industrial. Era um terreno quase plano, levemente inclinado, seco e firme, o que barateava o custo da construção. Outra vantagem era o fácil acesso dos moradores ao trabalho.
Iniciava-se na capital paranaense um conceito de moradias de baixa renda. Além disso, com dinheiro da prefeitura, fizemos um estoque de terrenos para construção de conjuntos habitacionais que durou dez anos. Nessas áreas, depois foram edificados vários conjuntos, como Vila Oficinas, Conjunto Santa Efigênia, Conjunto Cabo Nácar. As gestões seguintes gostaram tanto dos modelos de habitação que desenvolvemos que por dez anos os copiaram. Apenas no início da década de 80 ocorreram renovações, orgulha-se Willer.
Durante o período de três anos em que ficou na Cohab, o arquiteto também participou das reuniões do conselho do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc), que então iniciava as mudanças que transformariam Curitiba em exemplo nacional de planejamento urbano.
Teve a primeira fase, que foi de planejamento, entre 1965 e 72, quando o Ippuc iniciou a aplicação do plano diretor. Depois, ocorreram as grandes mudanças, com o sistema das vias estruturais, o sistema de transporte com os ônibus expressos, a transformação da Rua XV de Novembro em rua de pedestres e o tombamento e a reciclagem dos edifícios históricos, aponta Willer.
Na década de 70, o arquiteto voltaria à administração municipal, desta vez como primeiro presidente da Fundação Cultural. Eu criei a política cultural de Curitiba, quando a cidade passou a ganhar uma série de espaços culturais: o Paiol, o Centro de Criatividade, o Museu Guido Viaro, a Casa Romário Martins, o Calçadão da XV.
Ao longo dos anos, no trabalho de seu escritório de arquitetura, Willer também assinou os projetos de várias outras edificações-símbolo de Curitiba: o complexo do Sistema Federação das Indústrias do Paraná, na Avenida das Torres; os prédios do Hotel Pestana e Evolution Towers, no Centro; a sede da representação regional do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).
Willer desenvolveu outros projetos de destaque em outras regiões do Paraná e do Brasil e até mesmo fora do País: sua iniciativa internacional mais importante é a participação na reestruturação de Angola, devastada por uma guerra civil. Mas o coração do arquiteto continua na capital das araucárias.
Quando perguntado sobre seu projeto favorito entre suas dezenas de trabalhos, ele indica prontamente uma obra na região de Curitiba. Meu projeto favorito é o Alphaville Graciosa. Ecologicamente, ficou muito bom. Preservamos quatro bosques com amplos pinheirais e o projeto surgiu na época certa, em uma área que estava sob risco ambiental.
Sempre gostei muito de Curitiba, onde moro desde 1948. Quando começou essa fase de mudanças, de 65 para cá, fiquei muito feliz, porque a cidade se tornou uma referência de qualidade de vida. Me sinto parte da família curitibana e tenho orgulho de ter participado por várias épocas da vida pública de Curitiba, afirma.


