A criatividade embala novo design brasileiro
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 22 de novembro de 1996
Mariela de Castro Santos 
Comer pipocas em um capacete de operário, recostar-se em uma chaise-longue que mais parece um carrinho de mão de pedreiro, sentar em um puff que lembra um aspirador. É neste universo aparentemente louco que os designers mostram sua criatividade, criando novos usos para peças e materiais projetados originalmente para funções completamente diferentes.
A porta pipocas, a chaise e o puff existem mesmo, e saíram da imaginação do designer paulista Flávio Verdini, 33 anos, um dos expoentes no cenário nacional. Verdini esteve em Curitiba na última quarta-feira para a abertura da Primeira Mostra de Design, com seus mais recentes trabalhos.
No evento, organizado pela Inove Store, que comercializa suas peças em Curitiba, Verdini exibiu também objetos mais usáveis, como um rack para TVs de 29 polegadas e estantes. Esses móveis, que o designer classifica como quase invisíveis, baseiam-se no conceito de linhas simples lançado pela Bauhaus, mais importante escola de design e arquitetura do mundo, fundada na Alemanha no começo do século. Brinco com os vícios e o preconceito do denominado bom desenho, teoriza. A preocupação excessiva dos designers com a forma e a função bloqueia a criatividade. É por isso que vemos tantas coisas inspiradas em peças já existentes.
Ao aproveitar de novas maneiras objetos cujo uso primeiro é outro, Verdini quer quebrar a ordem estabelecida. A idéia é brincar com as imagens, obrigando a uma nova ótica. Assim, o operário, o pedreiro e o aspirador são referências mais do que corretas, mas vistas por outro ângulo.
Esse olhar atento nasce de uma tendência da vida moderna: com o advento da informática, as pessoas passaram a trabalhar e a se distrair sem sair de casa, também para fugir da violência. Assim, os objetos domésticos passaram a ser quase companheiros de estimação, sendo mais notados. Por conta dessa preocupação, a tendência é baratear os objetos de design, que se tornariam mais populares, julga Verdini.
Embora sempre elitizado e de vanguarda, o design serve a usos bem mais amplos, sendo ferramenta indispensável na produção em larga escala de bens duráveis e usados por todos os tipos de consumidores, como sofás, luminárias, vidros de shampoo ou escovas de dente (veja matéria na página ao lado). Se alguns designers ainda cultivam a aura de arrogância e sapiência absoluta, é porque a popularização do design ainda está a caminho.


