O desejo de escalar o K2 não é só de alpinistas, que sonham em vencer a segunda maior montanha do mundo no norte do Paquistão. Também é de alguns peões, como Amauri Laurindo, de Umuarama. Porém, o grau de dificuldade desta façanha não é medida em metros, mas em arrobas, que no menor vacilo do cowboy, podem cair sobre ele numa avalanche.
A lista de obstáculos a ser vencida pelo peão, que começou a disputar rodeios há quatro anos, colocando na garagem dois carros e duas motos, inclui ainda outras montanhas de força bruta.
Além que querer montar o K2, o cowboy de 22 anos deseja enfrentar os bois Manhattan e Jogo Bruto, que na sua opinião, são tão perigosos quanto o Bandido, que ganhou fama ainda maior ao se tornar protagonista da novela ''América'', que terminou recentemente.
''O Bandido é um boi que parece que pensa. A gente encontra um animal como ele em cada 5 mil. Além de inteligente é grande, rápido, grosso e ligeiro, parecendo um bezerro. Esse animal parece que percebe quando o peão está firme. É um boi malandro'', conta o jovem cowboy.
Essa mística da arena, que mistura elementos de fama, religiosidade e coragem, transforma da noite para o dia um desconhecido num astro.
Nos bastidores do modismo que se tornaram os rodeios no Brasil, trazendo na garupa a cultura sertanejo-romântico, fazendo com que até pessoas que moram em grandes centros urbanos adotem o estilo country, estão vários peões que perderam a parada para o boi ou cavalo.
Alguns chegaram a ficar presos à cadeiras de rodas. Outros tiveram uma nova chance de vida, após acidentes que os deixaram em coma.
A rotina dos peões inclui o perigo, que pode aparecer nos oito minutos em que o cowboy precisa permanecer em cima do bicho ou dentro do brete, o compartimento onde a espera pelo início do jogo é tão dolorida quanto a queda na arena.
''O dinheiro que a gente ganha no rodeio não é um dinheiro fácil. Você pode ganhar R$ 100 mil e gastar com bebedeira. Você precisa aprender a investir, já que o pouco com Deus é muito. Conheço peões que ganharam muita coisa e hoje não têm nada. É uma carreira de altos e baixos'', afirma Laurindo.
Os riscos de perder tudo fora dos rodeios, esbanjando dinheiro, são fáceis de prever. O difícil é aprender a conviver com possíveis sequelas de um acidente.
Em Umuarama, cerca de 10 peões montam em bois. A cidade tem uma das maiores festas de rodeio do Paraná.
Laurindo é o único peão do município a ter ganho duas motos e dois carros montando em boi. A conquista lhe custou a perda da visão em um acidente.
''O animal que me machucou se chama Bad Boy. Quando a gente se machuca não lembra de muita coisa. Sei que o chifre dele tocou o meu rosto. Além de quebrar o meu nariz, deslocou o maxilar, pressionando o nervo ótico esquerdo. Fui para Curitiba me tratar e fiquei sabendo que a situação é irreversível. Continuo montando. A profissão da gente é perigosa. Monto sabendo dos riscos, que corro. O que tenho na vida é o que ganhei no rodeio. Acredito que peão é mais inteligente que o boi, que é só força bruta''.
Vencer o rodeio de Barretos -que na gíria da arena é a festa ''mió da galáxia'' - é mais que um sonho. É a própria glória. Ricardo Soares, o Palito, de Umuarama, mas que sempre disputou por Sertanópolis (40 quilômetros ao norte de Londrina), quase entrou nesse Olimpo ao se classificar duas vezes para a final da competição de montaria em cavalos.
Ganhador de 23 motos e dois carros, o rapaz é considerado o maior ganhador de prêmios do Paraná.
Mas até ele já foi pego pelo destino incerto no brete, que se define em alguns segundos na arena.
Há dois anos, num rodeio de São Carlos do Ivaí (58 quilômetros a oeste de Maringá), uma égua derrubou o peão, que ficou cinco dias em coma. Palito só se lembrou quem era três meses depois ao se reconhecer no espelho.
Apesar gravidade do acidente, o rapaz voltou a montar e sonha acordado com o dia em que enfrentará o destino novamente na festa de Barretos.
''Um ano e meio após o acidente voltei a disputar rodeios. Fiquei com mais coragem. Medo comigo não existe mais'', comenta Palito, que levou para a fama, o apelido da época em que era atração nos rodeios de circo.
Ele é um dos muitos peões que se acidentam no jogo perigoso entre cowboy e animal e que só não morrem pelo que acreditam ser um milagre, graça de Deus por intercessão de Nossa Senhora, a santa de devoção da maioria dos peões. ''No dia em que me machuquei o chão estava duro. Os amigos me disseram para não montar que eu ia cair. Respondi que não cairia. Eu não caí, mas o animal caiu em cima de mim''.
Um touro ou cavalo 'veiaco' -de difícil montaria - pode transformar numa tragédia o dia em que a ''banana vai comer o macaco'', que na gíria dos peões teria tudo para dar certo.
Ao se despedir da mulher e do casal de filhos, antes de viajar para a competição, Palito pressentiu que alguma coisa poderia acontecer e se emociona ao lembrar.
''Falei para a minha mulher que se acontecesse algum acidente comigo, que não me deixasse ser atendido pelo SUS. Montei na camionete e fui para o rodeio. Quando machuquei saiu até um comentário que eu tinha morrido. Me contaram que passei muito mal. Se estivesse internado pelo SUS, o médico só apareceria no outro dia para me atender. Tenho certeza que teria morrido'', conta o peão.
Palito ainda sente vertigens em consequência do acidente, mas não se revolta pelo desfecho trágico da montaria e diz que homem de rodeio tem desafios maiores a enfrentar.
Fazendo coro com os que dizem que ''santo de casa não faz milagres'', o cowboy, que nasceu em Sertanópolis, se ressente de que muitas pessoas ainda têm preconceitos contra os peões.
''Sempre representei Sertanópolis. Um dia, cheguei na cidade vestido de peão. Tive que ir embora porque não consegui me hospedar num hotel, já que dono disse que não me receberia por ser peão'', lamenta.
Fora do brete e da arena, os riscos para o cowboy podem estar atrás de cartas marcadas.
''Existem peões que dividem cerca de 10 a 20% do prêmio com o juiz. Esses competidores dizem que querem montar em determinado animal. Na hora do sorteio, alguns juízes entregam o papel com o nome do cavalo escolhido para a pessoa que vai sortear para o peão, que faz a montaria que quer'', explica Palito.
Nem os detalhes dos bastidores e os riscos de voltar a montar um cavalo daqueles bons de rodeio, mas que não poupam nenhum peão, desanimam Palito. ''Continuarei a montar. Só não quero que meu filho siga o mesmo caminho meu''.

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