A copiadora de Seben e o Gordini de Vergara
Marafa conta passagens da sua longa história dentro da Folha. O jornalista Hugo Seben (já falecido) era responsável pelas notícias econômicas no jornal. Um dia, instalado o sistema off set, tornou-se encarregado do setor industrial, que era a ligação entre a Redação e a Oficina.
Seben assumiu o departamento e começou a comprar equipamento. Uma copiadora de chapa, lembra Ivo, era o xodó do chefe - tinha o maior luxo com ela. Seben entrava no departamento, olhava carinhosamente a máquina, e na saída passava o dedo, de leve, para ver e sentir se tinha poeira - ele tinha ciúme daquela máquina. Era sempre o mesmo gesto, repetido toda vez que Seben entrava ou saía da Fotomecânica. Os funcionários logo perceberam e, quando Seben estava chegando, alguém esfregava um pano no lugar onde ele costumava passar o dedo. Nunca viu pó na fotocopiadora.
Pedro Vergara Correia, jornalista, gaúcho, era torcedor roxo do Internacional de Porto Alegre, e vivia embirrando com Hugo Seben, também gaúcho, porém inimigo, como torcedor do Grêmio. Mas, a história lembrada por Ivo é outra: Vergara possuía um Gordini que vivia enguiçando. Ele morava na Avenida Paraná (hoje Avenida Celso Garcia Cid), saía pela noite com os colegas, que lotavam o carrinho, e de vez em quando telefonava, pedindo ajuda - o valente Gordini enguiçara, o que era coisa corriqueira...
A Folha também possuiu um Gordini, que geralmente Álvaro Grotti dirigia. Antes, o Patrão comprara uma Komby que, a exemplo de outros (poucos) carros que o jornal tinha no começo, era usada para funcionários aprenderem (sem o Patrão saber, supunha-se) a dirigir. Marafa, ainda pouco mais do que um moleque, resolveu testar. Apenas queria sentir-se importante ao volante da perua, nem queria ligar. Mas, mexe daqui-mexe dali, acabou desengatando a Kombi, que desembestou e bateu em um monte de tijolos. Apenas um amassadinho. Imagina o susto que levei!, recorda Ivo. Voei fora e pensei: estou na rua. Que nada, o pernambucano Manezão, então único motorista contratado pelo Patrão, escondeu a travessura. Ficou por isso mesmo.
Talvez porque a empresa fosse menor, embora chegasse a ter 16 paginadores, 4 impressores, 8 ou 9 linotipistas e o tituleiro, Ivo Salim, era grande a união do pessoal da Oficina - onde ia um, ia o bando inteiro. Hoje o pessoal é mais distanciado, quem sabe em função da rotatividade. A mão-de-obra antigamente era muito mais fixa, o funcionário ficava anos na empresa..., analisa Ivo.
Isso explicaria tantas recordações, porque os antigos gostavam de ensinar os novatos. Como fizeram o Gaúcho (Manoel Gomes de Oliveira) e seu irmão, o Leitão, que ensinaram Ivo, respectivamente, a lidar com a caixa de tipos - e a paginar.
Ivo diz que não poderia esquecer-se de Laudelino Ferraz, linotipista e encarregado geral da manutenção. Paulista de Bauru, Lau, além de linotipista, tornou-se mecânico que consertava qualquer tipo de máquina na Oficina e também mexia na parte elétrica. (J.O.)





