A conjuntura e o Paraná
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de maio de 1997
Gilmar Mendes Lourenço 
Decorridos quase três anos desde o lançamento de um novo padrão monetário, o processo de estabilização brasileiro acusa potencialidades e fragilidades. De um lado, o conjunto de resultados positivos reúne o controle da inflação em patamares anualizados inferiores a 10% a neutralização dos mecanismos de indexação automática de preços e salários e o aumento dos níveis de concorrência empresarial em face da abertura comercial.
Acrescente-se a recuperação e a mudança qualitativa do consumo interno, vinculada à melhoria do poder aquisitivo dos salários e à revitalização dos instrumentos creditícios, o ingresso líquido de capitais externos e o esboço de reativação das inversões produtivas.
De outro lado, o passivo do Real contabiliza o entrelaçamento entre a continuidade da indisciplina fiscal nas diferentes esferas da administração (federal, estadual e municipal) e dificuldades de financiamento das contas externas, por conta da intransigente manutenção das âncoras cambial e monetária do programa de ajustamento macroeconômico.
Enquanto isso, tramitam lentamente, no Congresso Nacional, as emendas contitucionais voltadas às reformas estruturais, com ênfase para o ajuste fiscal. Como consequência, observa-se um aumento do déficit público, elevação do desemprego estrutural e conjuntural e o agravamento dos desequilíbrios comerciais.
Mesmo assim, ainda sobrevivem expectativas de avanço nas frentes fiscal e tributária, na direção da compreensão de custos e elevação da competitividade sistêmica da economia brasileira, capazes de ensejar o gradativo abrandamento da política de juros altos e de atraso cambial e propiciar a travessia da fase de estabilização para um novo ciclo expansivo.
Qual o papel assumido pelo Paraná nesse cenário marcado pela necessidade de administração flexível da rota do real e pela busca de criação de condições objetivas à retomada do crescimento econômico em bases duradouras?
Na verdade, a primeira metade da década de 90 registra um desempenho oscilante da economia estadual, fruto da influência conjugada ou sequencial da recessão econômica da Era Collor, da instabilidade das cotações internacionais da commodities e da deficiente política agrícola formulada e executada pelo governo federal. Entretanto, o surgimento de alguns fatores estruturais acaba por otimizar as possibilidades de rápida e pronunciada modificação do perfil produtivo da base regional, em condições de expansão auto-sustentada da economia brasileira.
Esses componentes podem ser classificados em cinco grandes grupos estritamente articulados. O primeiro deles retrata o enorme potencial de modernização agrícola e agroindustrial, sustentado na estrutura empresarial cooperativista operante no território estadual, na esteira do incremento do mercado interno, reforçado pela recomposição do poder de compra da população vinculado à estabilização monetária.
O segundo bloco equivale aos reflexos ampliados, em nível regional, do movimento de readequação técnico-produtivo-gerencial, empreendido pela iniciativa privada, para enfrentamento da situação de maior exposição à competição externa, motivada pela abertura. Especificamente, as empresas passaram a priorizar a adoção de estratégias visando o aprimoramento dos padrões de eficiência, produtividade e competitividade, mediante a introdução de novas formas de produção, gestão, controle de qualidade, inovação tecnológica, entre outros avanços, maximizados pelo expediente de importação de equipamentos.
O terceiro grupo traduz a recuperação dos níveis de produtividade das lavouras no Estado - embora concentrada nas culturas de soja e milho -, explicada pelas condições climáticas favoráveis, pelas elevações das cotações mundiais, pelo aprofundamento dos programas de manejo integrado e conservação dos solos, iniciados nos anos 80, e pelo crescente emprego da técnica de plantio direto.
O quarto conjunto congrega o front internacional, incluindo o Mercosul, atestado pelo exponencial crescimento das vendas externas paranaenses para o resto do mundo, que saltam de US$ 2,11 bilhões em 1992 para US$ 4,52 bilhões em 1996, experimentando variação acumulada de 114,2% contra 33,4% da média nacional. Esse desempenho elevou a participação do estado nas exportações brasileiras de 5,9% em 1992 para 8,9% em 1996, corroborando a condição de quarto lugar no ranking dos estados exportadores.
Por fim, o quinto bloco congrega as ações e o aporte de recursos viabilizando inversões públicas para na restauração e ampliação da infra-estrutura econômica, gerando impactos setoriais/regionais e alargando as vantagens comparativas desfrutadas pelo Estado para a atração de novos capitais.
Todos esses condicionantes, acrescidos do aparato institucional de estímulos fiscais e financeiros, explicam, sobremaneira, o delineamento de uma tendência de rompimento da característica de rígida complementariedade da economia paranaense em relação a São Paulo.
A vinda das montadoras estrangeiras e de seus supridores diretos - efeito também do deslocamento do crescimento do pólo industrial saturado, sediado no Sudeste, rumo às localidades com flagrantes economias de aglomeração no Centro-Sul e fortemente articuladas ao Mercosul -, ao lado da apreciável carteira de projetos agroindustriais (em mãos das cooperativas e outros grupos nacionais privados), abrem flancos para um maior adensamento da matriz produtiva estadual, até então dominada pelo agrobusiness.
- GILMAR MENDES LOURENÇO é economista do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social - Ipardes.


