Anotar, só se for para esquecer. Esta é a filosofia da jornalista Nicéia Lopes, 40 anos, que bem poderia ser definida como a memória viva da 10ª Subdivisão Policial (SDP) de Londrina. Repórter policial há mais 20 anos, Nicéia tem na ponta da língua os principais crimes ocorridos na cidade nestas duas décadas. Junto com os nomes dos envolvidos, ela lembra datas, locais, circunstâncias, tipo de arma utilizada. Como se não bastasse, costuma acompanhar o desenrolar do caso.
  Até uns anos atrás, alguns delegados costumavam recorrer à boa memória de Nicéia quando questionados sobre dados estatísticos da Polícia Civil. ‘‘Os delegados Gilson Garret e o João Eduardo Carulla sempre me chamavam para perguntar nomes, números de homicídios e detalhes de crimes’’, relembra a jornalista. A facilidade de guardar informações, conta, a acompanha desde pequena. ‘‘Minha menor nota em História era 98. Em compensação, nunca fui boa em matemática.’’
  Ela diz que sempre gostou de ler já fazendo esforço para memorizar a informação. ‘‘Já cheguei ao ponto de folhear um livro para um trabalho de faculdade e, na hora de apresentá-lo, fazer citações como se tivesse lido tudo.’’
  A técnica de Nicéia para exercitar a memória é aparentemente simples: além da atenção redobrada ao ouvir ou ler alguma coisa, nunca anota nada. ‘‘Procuro armazenar tudo na minha cabeça, porque se anoto, automaticamente passo a responsabilidade de gravar para o papel, e sei que daí não vou conseguir lembrar depois. Então só anoto um número ou informação se tiver a intenção de esquecer.’’
  A repórter conta que sempre presta muita atenção nos detalhes. E como todos conhecem esta sua característica, várias vezes foi chamada para ser curadora de menores e acompanhar seus depoimentos, que depois, se preciso, podiam ser reproduzidos em detalhes. Como também tem grande facilidade em guardar nomes, ela procura nem ouvir os nomes dos menores que entrevista. ‘‘Como a gente não pode divulgar o nome deles (por determinação do Estatuto da Criança e do Adolescente), faço questão de não saber para não falar sem perceber’’, explica.
  Nestes muitos anos de trabalho na 10ª SDP, ela tem uma infinidade de histórias para contar. Várias são da época em que funcionava no mesmo endereço a Cadeia Pública de Londrina – ou Cadeião, como ficou conhecida. O prédio foi desativado em 28 de janeiro de 1994, mas nas lembranças de Nicéia ainda estão vivas as imagens das celas superlotadas e das marcas deixadas pelas fugas espetaculares. Puxando ainda mais pelo fio da memória, ela relembra um dos primeiros casos de grande repercussão que cobriu como repórter: ‘‘Foi a morte de Sérgio Peres, que estava com a namorada, Míriam, em uma camionete e foi abordado na Avenida JK por um alcagüete da polícia, que teria disparado a arma acidentalmente contra sua cabeça, no início da década de 80.’’

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