A BUSCA DA FELICIDADE - Pequena história de uma grande superação
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sábado, 26 de agosto de 2006
Marta Ortega<br>Reportagem Local 
Por várias vezes encontrei dona Joana conduzindo pelo braço o filho Fabrízio, um homem já feito, mas que, devido a problemas neurológicos, precisa de ajuda para se locomover. Nossos encontros acontecem sempre na sala de espera de um consultório odontológico, onde o rapaz faz tratamento. Dona Joana fica ali, sentada, fazendo seu tricô, enquanto conversa o tempo todo com o filho ou com algum outro paciente que aguarda atendimento. A funcionária chama por Fabrízio. Dona Joana guarda tranquilamente o tricô, suspira fundo como quem busca força, levanta-se do sofá e avisa em tom de brincadeira: ''Espera aí, que daqui duas horas a gente chega''. A fala desta mulher, que sorri com os olhos, arranca risos de todos, já que o percurso até a sala de atendimento tem apenas poucos metros. E ela ainda comemora: ''Hoje ainda vai dar tempo de assistir 'Sinhá Moça'''.
Pacientemente, ela se vira para o filho, estende os braços fortes em direção a ele e o puxa com força, até que Fabrízio se levante. Olhar fixo nos olhos do filho, dona Joana parece esquecer o esforço e solta mais uma frase, desta vez só para ele: ''Vamos lá, meu campeão!''. Eles sobem vagarosamente o degrau da sala e seguem para o corredor. O percurso dona Joana faz de costas, para que o filho Fabrízio, apesar das limitações, continue olhando o mundo de frente.
A história desta mãe e de seu filho pode ser a mesma de tantas outras mães e tantos outros filhos. Mas, com certeza, a disposição para enfrentar as dificuldades e as limitações, tem nestas duas pessoas, um grande diferencial. Apesar de todos os problemas, Fabrízio e dona Joana estão sempre de bom humor e por onde passam dão exemplo de coragem, amor e de luta pela vida.
Mesmo diante de uma situação tão delicada, os dois conseguem encontrar felicidade em tudo, principalmente em cada pequeno progresso alcançado por Fabrízio. ''Se a gente falar que é fácil, mente. Temos de aceitar a situação, mas sem abaixar a cabeça e lutar para melhorar sempre'', começa a conversa, enquanto recebe a equipe da Folha em sua casa, na cidade de Cambé. É ali, no apartamento térreo, cheio de fotos da família espalhadas pela sala, onde telas coloridas enfeitam e dão mais vida ao ambiente, que dona Joana vive com Fabrízio.
O destino trágico fez com que a vida da família Catenassi mudasse da noite para o dia. Fabrízio, hoje com 35 anos, tinha apenas 20 quando tudo aconteceu. Cursando o último ano da faculdade de Administração de Empresas, havia dois anos trabalhava numa firma de transformação de plásticos e, como qualquer jovem da sua idade, vivia intensamente.
No dia 16 de dezembro de 1990, Fabrízio sofreu um acidente de moto, que resultou em fratura exposta na perna e um trauma de crânio, com ''deslocamento'' de estruturas encefálicas, causando um problema neurológico, que limitou seus movimentos.
''Foram 30 dias na UTI e outros 28 no quarto do hospital'', detalha Joana Saloio Catenassi, 63 anos. Encaminhado para casa pelos médicos, Fabrízio viveu seis longos meses em estado vegetativo. ''Ele não falava, não se movia e só se alimentava por meio de sonda'', relembra a mãe. O filho mais velho, Adilson e o marido Osvaldo, ajudavam nos cuidados.
Atenta, a mãe observou em Fabrízio um movimento de cabeça, imperceptível para qualquer outra pessoa. Começava a comunicação. Num ímpeto, a mãe, que todos os dias preparava o alimento líquido para ser colocado na sonda, tomou uma decisão, simplesmente comunicada a Fabrízio: ''A partir de hoje você vai comer''.
A frase soou como uma ''ordem''. A mãe foi à cozinha, preparou um copo grande de vitamina e o filho conseguiu engolir todo o líquido. ''Depois, foi só começar a fazer a comida'', comemorou dona Joana. Fabrízio voltou a se alimentar normalmente. Recuperou o peso, a força e a vontade de viver.
Os estímulos fizeram com que Fabrízio recobrasse também a fala. O primeiro pedido (ou seria mais uma ordem?) foi que ele falasse ''mãe'' e Fabrízio mais uma vez, ''obedeceu''. A partir daí, foi só buscar o trabalho de profissionais como fonoaudiólogos, fisioterapeutas, equoterapeutas, responsáveis pela evolução no tratamento do rapaz. Hoje, como comenta dona Joana, o jovem ''leva uma vida praticamente normal'', inclusive ajudando a mãe em pequenos afazeres domésticos.
Mas o destino ainda reservava uma surpresa. Seis anos após o acidente do filho, dona Joana perdeu o marido, num trágico acidente de carro. ''Meu marido era meu esteio. Não sei como sobrevivi''. A partir daí, além dos amigos, dona Joana pôde contar com outros dois ''anjos da guarda'', as irmãs Alice e Maria de Lourdes. ''Meus anjos são infalíveis'', declara, em tom de reconhecimento.
Hoje, a rotina é árdua, mas ela a descreve brincando. ''Levanto cedo e preparo mingau para o meu bebê'', como chama carinhosamente Fabrízio, apesar dos protestos do filho: ''Menos, mãe, menos''. Os dias seguem com atividades intensas: fisioterapia, academia e as aulas de pintura, que também ajudam na coordenação motora. Três grandes telas coloridas, preparadas por ele, enfeitam as paredes da casa. ''No começo foi difícil. Ele só conseguia fazer o fundo da tela. Agora já consegue preencher o desenho'', orgulha-se a mãe, num momento emocionado.
A busca pela recuperação de Fabrízio é constante. A esperança hoje é o tratamento com células-tronco. ''Tentaremos de tudo para que ele melhore cada vez mais. Se nada der certo, a gente joga ele na pirambeira e faz de conta que escorregou'', brinca a mãe, com o aval de Fabrízio.


