A broa com vina, o dolé e o penal
Israel Reinstein
Além da personalidade fechada, o curitibano pode ser identificado pela sua forma de falar. Influenciado pela colonização européia, o curitibano acentua as vogais ê e ô, que estão nos fins das palavras. Outra característica na fala é o erre forte. Porém, o que marca mais são algumas palavras que não são ouvidas em outras cidades do País.
Por exemplo, como um menino paulista iria reagir se um colega o convidasse para comer um pão com salsicha: Piá, vem comer uma vina!. Além da vina, outras palavras marcam o vocabulário do curitibano, como dolé e broa. Mas o linguajar do curitibano não se caracteriza apenas por esses termos. A pipa ou pandorga torna-se raia, a mexerica do paulista é a mimosa e lâmpada é foco. O estojo de lápis vira penal e o balão na mão da criança vira bexiga.
Palavras como vina e dolé, que denomina o picolé, nascem em cada uma das cidades do Brasil, explica o professor de linguística da Universidade Federal do Paraná, José Luiz Veiga Mercer. Mas a vina é única de Curitiba. Ela é uma corruptela da palavra wienerwurst, que é a salsicha de Viena. Outra corruptela é a broa, do alemão schwartzbrott (pão negro), que passou a designar o pão de centeio e de outras variedades.
Grande parte dessas palavras são resultados da adaptação de denominações vinda de outras línguas, a maioria européia. Essas palavras não são paranaenses, são de uma parte do Sul do Brasil, explica o professor Mercer. Ele conta que elas foram criadas pela colonização, com traços fortes dos açorianos do litoral. No Norte do Paraná, a influência é dos paulistas e mineiros.
Mas todo este regionalismo vive numa constante luta com uma padronização que vem crescendo em todo o Brasil, diz Mercer. O professor credita essa mudança à nova migração na cidade e também aos meios de comunicação. Nesta luta estão a força centrípeta da padronização e a centrífuga do tradicionalismo. Dessas duas surge a vida da língua portuguesa, complementa Mercer.
A linguista da UFPR, Lígia Negri, acrescenta que quando os grupos econômicos se destacam, toda a sua cultura passa a ganhar força. Veja o caso do segmento sertanejo, onde existem pessoas que sentem hoje orgulhosas de falar de forma forte a palavra porta, diz.





