Em um típico final de tarde do inverno curitibano, frio e nublado, o londrinense Gerson Guerra, de 57 anos, foi obrigado a interromper a conversa por várias vezes para receber calorosos cumprimentos de gente que entrava e saía do bar que serviu de cenário para a entrevista. Quem viu a cena de longe e desconhece a considerável galeria de personagens de Curitiba, com certeza deve ter pensado que se tratava de alguma celebridade, autoridade ou, no mínimo, um profissional muito bem sucedido para merecer tanta atenção. Quase isso. Durante 15 anos, Guerra desenvolveu uma sólida carreira como engenheiro civil, após se formar na Universidade Federal do Paraná, passar em um concurso público para o antigo Banco Nacional da Habitação (BNH), onde chegou a ocupar o cargo de assessor técnico de engenharia. Mas, sua popularidade não está relacionada a isso, nem ao fato de ter sido sócio de uma construtora, e sim, ao fato dele ter mudado o curso de sua vida, abandonando a engenharia para unir arte gráfica, literatura, poesia e humor em um projeto iniciado em 1994 e que recebeu o nome de Agenda Arte.

Trabalhando com a irmã, Regina Guerra, e a mulher, Simone Salomão, e contando com uma turma de parceiros entusiasmados pela idéia, o hoje artista e artesão Gerson Guerra está em plena produção da edição 2008 da publicação em cujas 300 páginas ilustradas os leitores encontram frases e imagens inspiradoras para cada dia do ano. O estilo de vida que tornou Guerra conhecido dos curitibanos inclui ainda uma barraca na tradicional feira dominical no Largo da Ordem, onde são vendidos agendas, carteiras e marcadores de livro com a marca Agenda Arte, e os personagens Arqino (assim mesmo, sem o u) e D.Quina que o artista ''incorpora'' durante suas apresentações a crianças e idosos do projeto social Vale Sorriso.


Folha de Londrina - Como surgiu a idéia de juntar arte gráfica e literatura em uma agenda?
Gerson Guerra - A vida que eu levava já não estava me dizendo muita coisa. Comecei a me interessar por arte e literatura e, nesse período, fui morar em Florianópolis (SC), onde passei dois anos. Tinha mania de guardar frases, poesias e naquela época também comecei a escrever e ler bastante. Ao mesmo tempo, queria fazer algo útil. A idéia era lançar uma publicação, mas um livro de frases seria algo comum. Então, veio a idéia da agenda, relacionando cada frase com uma data, e acho que foi uma grande ''sacada'' porque podemos brincar com o dia-a-dia das pessoas. Esse é o básico do nosso projeto. Sempre digo que sou um anarquista sem o ''u'', meu personagem é o Anarqino. Esse tipo de anarquia é a simples organização do prazer e da liberdade.

Folha - Você realizou uma mudança profunda em sua vida. Algum arrependimento? Consegue sobreviver apenas com a venda dos produtos que cria?
Gerson Guerra - Nenhum. Antes eu vivia em um apartamento confortável, em um bairro legal, viajava com alguma frequência para o exterior. Hoje levo uma vida simples, mas feliz, ao lado da minha mulher e das minhas filhas (Alice, de 8 anos, e Luiza, de dois meses). Aos domingos, saio da feirinha (do Largo da Ordem) e vou fazer as compras da casa. Às vezes só dá para o arroz e o feijão, mas, às vezes, dá até para um vinhozinho... Hoje tenho outras ambições. O importante é que todo dia acordo e penso assim: com o que vou me divertir hoje, onde é que vou dar risada? E, normalmente, é no trabalho mesmo. É ótimo poder levar aos adolescentes e jovens coisas boas em termos de literatura. Uma amiga contou que, outro dia, a filha de 15 anos chegou em casa dizendo que queria um livro de ''um tal de Millôr'', porque tinha lido frases dele na agenda de uma colega. Isso é uma maravilha! Além de difundir cultura, a Agenda Arte também apóia um projeto social.

Folha- Como é realizado esse trabalho?
Gerson Guerra - O projeto Vale Sorriso, lançado junto com a primeira edição da Agenda Arte, em 94, atua em três áreas: arrecadação de roupas e brinquedos usados, que são trocados na feirinha por agendas antigas, a realização de oficinas destinadas a adolescentes em situação de risco social e outras direcionadas a idosos, organizadas em abrigos e casa de repouso. Além disso, o Anarqino faz visitas frequentes aos pacientes do Hospital de Clínicas e às crianças de uma creche em Almirante Tamandaré, na Região Metropolitana (RMC), enquanto a D.Quina visita os idosos. Essas são coisas que me dão muito prazer, é uma satisfação pessoal. Sinto-me realizado quando passo um dia em uma creche ou com os idosos.

Folha - Ano que vem a Agenda Arte completará 15 anos. Os leitores podem esperar novidades?
Gerson Guerra - Estamos na fase de montagem, a seleção literária já está praticamente finalizada. Na edição 2008 o personagem Anarqino estará mais evidente.

Folha - O que diria para quem está insatisfeito e sonha mudar de vida?
Gerson Guerra - Eleja prioridades. É importante saber o que se quer realmente fazer, de preferência algo ligado à arte, pois todo mundo nasce pronto para desenvolver qualquer tipo de coisa. Hoje fala-se muito em preservação do planeta. Mas, antes de mais nada, devemos nos preservar, garantir a nossa saúde. Fazer o que gosta, estar feliz, fazer o bem, são formas de contribuir com a preservação da vida na Terra. E como diz o Anarqino: o presente não é de grego se dá amnésia no passado, o pra sempre é apenas enquanto e o futuro, vai bem obrigado.

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