A arte de vender
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terça-feira, 05 de maio de 2009
Rafael Urban<br> Equipe da Folha 
Beatriz Milhazes a R$ 600. Vik Muniz a R$ 800. Tunga a US$ 5 mil. Artistas brasileiros cujas obras hoje valem dezenas, por vezes centenas de milhares de dólares. No começo dos anos 1990 eram vendidos em uma galeria de Curitiba pelos valores supracitados. "A chuva cai aqui. A chuva cai aqui. Não tem erro, é o chovedor", explica o galerista Marco Mello, 54, dono da Casa da Imagem, fundada em 1991.
Ele compara o mercado das artes com o das ações. "Não precisa ser visionário. O MoMA, por exemplo, planeja suas exposições com dois anos de antecedência." Se isso vale para o museu de arte moderna de Nova York, o caso é o mesmo de obter as informações com um curador prestes a organizar uma exposição no Brasil. "Aí é só você somar um mais um", diz. "Se vão abrir capital, os preços vão lá para cima. E o valor da ação vai aumentar."
Hoje a galeria de Mello está estabelecida. A imponente construção na Dr. Faivre tem 600 metros de área expositiva. Em breve, vai ganhar auditório para cem lugares, que receberá a série de conferências Houston, We Have a Problem entre a segunda quinzena de maio e a primeira de junho. A marca de espaço cultural está desde o início da história da galeria, quando Mello trouxe a Curitiba diversos críticos de arte e curadores para dar palestras. Como efeito cascata, não apenas reforçou a presença da cidade no circuito das artes como promoveu a própria marca, ganhando compradores País afora.
Junto aos artistas citados no começo deste texto, Mello trouxe obras de outros. Hoje, guarda certo sentimento de culpa. "Acho que acabei criando um paradigma", diz. "Como se, ao dar destaque para os de fora, gerei um ah, a gente não está à altura." Os tempos são outros. Se afirma que a sua galeria já foi uma das cinco ou seis na lista que cita das que têm relevância no Brasil, o mais impressionante de seu discurso está em outro aspecto. "Pela primeira vez Curitiba está às vésperas de ter um meio de arte."
Antes, ele continua, teve bons casos espaçados. Hoje não são apenas muitos artistas talentosos se relacionando, como uma série de acontecimentos que propiciam a criação desse meio: a Bolsa Produção, um incentivo da fundação cultural da cidade à produção artística; a criação do Museu Oscar Niemeyer e, por certo, novos colecionadores, que oxigenam todo esse mercado. E se tem uma faceta que o próprio assume como messiânica, não deixa de lado a do negociador. "Estou tentando jogar mais, mostrar o que é daqui."
Com a série de conferências, abre uma exposição de 13 artistas contemporâneos. De Carina Weidle e Fabio Noronha, de uma geração anterior, a Juliane Burrigo, Juliana Stein e C.L Salvaro, os três beirando a casa dos 30. Tal como Stein e Salvaro, Tony Camargo, 30, é outro artista que desenvolve seu trabalho na capital, vai participar da mostra e já foi selecionado pelo programa Rumos, do Itaú Cultural. É, também, uma forte aposta de Mello. "Obviamente, recomendo que comprem as obras", diz. "Apostem como quiserem. Alguns vão dar certo, outros não."
O evento que começa na segunda quinzena deste mês vai debater o "problema". "Muitos artistas só tem a preocupação em ser grandes artistas. Em se profissionalizar", diz. "Mas artista não é sapateiro, médico ou dentista. Todos os contemporâneos de Van Gogh eram profissionais, mas a questão talvez seja que Van Gogh estava fazendo arte e os outros não." Segundo Mello, Camargo é um dos poucos artistas preocupados não apenas em discutir as soluções como também os problemas - ele fica em claro para dois dias depois retornar com uma resposta na forma de arte.
Com a crise financeira, as grandes corporações correm para as obras de alto valor. E se hoje um Picasso vale US$ 100 mi, na opinião de Mello é natural que, um dia, valha um bilhão. Uma das razões sendo que a produção artística estaria com seus dias contados, justamente pela ausência da problematização, enquanto artistas apenas buscam soluções para produzir a sua arte.
"Quanto ao trabalho do galerista, ele não se pergunta se Picasso vende. Ele vende Picasso." "É uma forma de preservação a priori. De algo que mereça transcender o tempo." E deparar-se com uma obra de arte na opinião do galerista, que já foi professor universitário, é estar diante do próprio néctar. Como vai ser o mundo sem isso, ele não sabe. "Mas temo que ele deixe de ser real."


