‘Existe coisa melhor que um lago como esse dentro da cidade?’’, diz o mecânico desempregado Valdir Ricci, 32 anos, que admite passar diariamente quase dez horas às margens do Igapó 1. Ele garante pescar em média seis quilos de tilápias por dia. O ponto de pesca é junto à ponte de transposição da Avenida Higienópolis. Descrente de qualquer informação de peixes contaminados, ele diz que pesca mais pelo prazer da atividade do que por opção de refeição. ‘‘Não sou muito de peixes, mas como alguns de vez em quando’’.
O companheiro de pescaria, Jorge Misuno, 59 anos, é agricultor, e apesar da sacola cheia de peixes mantida na margem, diz ter medo de consumi-los. ‘‘Eu dou para alguém ou devolvo-os ao lago’’, garante.
Outro pescador, o aposentado José Nakacogue, 83 anos, diz que sua freqüencia nas pescarias é de duas vezes por semana. ‘‘Minha mulher não me deixa vir mais vezes’’, brinca. Nakacogue fica pelo menos sete horas às margens do lago e, além das tilápias, costuma pescar algumas espécies de acará. ‘‘Não tenho medo de comê-los’’, admite.
O professor Oscar Akio Shibatta, do Departamento de Biologia Animal e Vegetal da UEL, diz que não há estudos específicos sobre riscos à saúde de quem consome os peixes do Igapó. Análises microbiológicas comprovam que a água do lago não é adequada ao consumo humano por conter organismos nocivos, como bactérias e coliformes fecais. Por isso, há o risco de a pessoa que consome muitos desses peixes ter algum problema de saúde. ‘‘Eu não comeria’’, garante. Ele alerta que a água do Igapó 1 contém resíduos de chumbo, um metal pesado que oferece riscos à saúde humana. Esse metal pode estar incorporado nos peixes que se alimentam de outros animais do lago. ‘‘O chumbo não é eliminado pelo organismo e pode provocar uma doença neurológica, o saturnismo’’.
Shibatta diz que mesmo com a má qualidade da água, o lago ainda tem boa população de peixes. Das espécies nativas, ele destaca a presença de acará, lambari, tuvira, mussum. Há ainda outras espécies como a traíra e o cascudo. o Igapó abriga ainda espécies introduzidas como a tilápia, a curvina e o barrigudinho (espécie comum de aquários). Ele destaca que, se não houvesse o represamento, a diversidade de peixes seria maior, como ocorre nos demais trechos do Ribeirão Cambé. ‘‘Se pensarmos em conservacionismo, o Igapó mereceria críticas, mas prefiro não condená-lo, o lago deixa mais bela a paisagem’’.

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