Aos gritos de ''Jesus, Jesus!'', familiares, colegas e amigos recepcionaram no Aeroporto Santos Dumont, em Londrina, um grupo de 30 estudantes que voltou, esta semana, de uma excursão à Europa. Jovens com idades entre 16 e 20 anos que organizaram, durante mais de dois anos, uma visita ao velho continente, para conhecer pontos turísticos com o entusiasmo comum às pessoas dessa idade.
O objetivo maior da viagem, contudo, não era participar de uma ''rave'', festas eletrônicas tradicionalmente promovidas na Europa. Como o nome usado nos gritos da recepção indica, a viagem, desde o início, teve caráter espiritual: os estudantes participaram da 20 Jornada Mundial da Juventude (JMJ), na cidade alemã de Colônia, onde tiveram a oportunidade de participar de uma missa celebrada pelo Papa Bento XVI, juntamente com mais 1 milhão de jovens de 193 países.
Na volta, os pais dos jovens puderam perceber que a bagagem não continha somente roupa suja e souvenires turísticos. A viagem serviu para amadurecer, em cada um e a seu jeito, os dogmas e ensinamentos de uma das mais antigas instituições criadas na história da humanidade.
Apesar de não ser considerada um sacramento cristão, uma visita ao Papa tem para os católicos quase o mesmo valor que a viagem a Meca, obrigatória para os muçulmanos pelo menos uma vez na vida (desde que tenham condições para isso), tem para o Islã. Com este sonho na cabeça, os jovens do Movimento Schoenstatt de Londrina ligado à um dos títulos atribuídos à Nossa Senhora, o de Mãe Três Vezes Admirável de Schoenstatt começaram a organizar a excursão para a JMJ.
O itinerário da viagem de 23 dias, considerando o ponto de vista estritamente turístico, seria facilmente vencido por qualquer pessoa interessada em conhecer os países europeus. No entanto, poucas pessoas demonstrariam com prazer tamanha dedicação aos hábitos e costumes cristãos que permearam toda a excursão.
A viagem foi capitaneada pelo padre Alexandre Awi e, segundo ele, a determinação, a vontade e a fé mostrada pelos jovens durante toda a excursão destacam a importância dos valores cristãos na formação moral dos adolescentes na atualidade. ''Percebíamos a alegria deles diante de uma excursão, mas ao mesmo tempo sentíamos que eles estavam espiritualmente preparados para a viagem'', conta. Para estes jovens, somente quem não entende e não contextualiza os dogmas da Igreja os critica.
Um dos exemplos usados para formalizar esta opinião refere-se justamente a um tema inerente à média de idade dos estudantes componentes do grupo: a sexualidade. Como lidar, ao mesmo tempo, com uma realidade permeada por Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs) ameaçando iminentemente a iniciação sexual na adolescência, em meio a recomendações para o não-uso da camisinha, feitas pelo próprio Papa?
''No próprio Movimento Schoenstatt, aprendemos a respeitar o tempo da mulher para o sexo. Tenho namorada, sou virgem e, como foi recomendado pelo Papa, vou esperar pelo casamento. Se formos fiéis aos nossos companheiros, entenderemos a coerência do que o Papa nos pediu'', afirma o estudante Mateus Carvalho, aos 19 anos. ''As pessoas criticam este tipo de recomendação porque não entendem os dogmas da Igreja'', completa Natália Vicente de Rezende, 18 anos.
Num misto de avanço e reserva, os jovens também aprovam a postura da Igreja diante de um outro tabu, o do homossexualismo. ''O mínimo que devemos ter é respeito por estas pessoas. Mas não sou favorável, por exemplo, à legalização da união homossexual'', afirma Vinícius Morigi, 19. ''Acho que a juventude está muito sujeita a modismos como este. A Igreja, por sua vez, nos ajuda a discernir sobre estes modismos'', teoriza Giovana Chimentão Punhagui, 17 anos.
Os jovens também são unânimes em afirmar que, assim como qualquer instituição de cunho humano, a Igreja merece perdão pelos erros cometidos ao longo da história, como a omissão diante do holocausto ou os julgamentos promovidos pela Inquisição. A avaliação de Talita Dutra Ponce, 15, é tais erros devem servir como lição. ''Ninguém é perfeito. Ainda assim, a Igreja nos orienta a buscar esta perfeição, como ela própria faz''. ''Os erros são cometidos por extremismos religiosos, não pela religião'', completa Giovana.
Unanimidade é também a lição trazida por todos os jovens. Segundo eles, a missão instituida por Bento XVI e que cabe a todos, hoje, foi muito bem assimilada. ''Entendemos que não podemos guardar as graças recebidas durante a viagem só para nós mesmos. Temos a missão de trazer para os outros jovens a palavra de Deus'', afirma Mateus, dando a deixa para que Giovana encerre o debate. ''Antes, o clero compunha a Igreja. Hoje, quem compõe a Igreja somos nós''.

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