Quando se fala na história do rock do Paraná e em especial do rock de Curitiba, é impossível deixar de citar o Blindagem. A banda veterana está completando 30 anos de formação em grande estilo: um show que estréia nesta semana no Teatro Guaíra mistura o som com influências de Beatles, Rolling Stones e rock dos anos 1970 do grupo com a linguagem erudita da Orquestra Sinfônica do Paraná (veja box).
  O baixista Paulo Juk considera que a parceria inédita coroa os 30 anos de existência da banda, longevidade que chama a atenção num Estado como o Paraná, onde poucos grupos de rock têm trajetórias de muitos anos. Ele destaca que o Blindagem - integrado também por Ivo Rodrigues (vocalista), Paulo Teixeira (guitarra), Alberto Rodriguez (guitarra) e Rubén ‘‘Pato’’ Romero (bateria) - mantém quase 100% da formação original.
  ‘‘A única mudança que tivemos foi a troca de baterista, há 22 anos’’, diz Juk. ‘‘Consideramos muito a amizade que temos. Por isso estamos juntos até hoje. No Brasil, existem bandas com a mesma idade ou até mais, mas mudaram de formação umas 300 vezes’’,
argumenta o vocalista Ivo.
  Quando a banda se formou, o rock ainda era mal visto no Brasil. ‘‘Eu trabalhava com o (Paulo) Leminski (escritor curitibano) como jornalista. Fiz amizade com o Ivo e com a ‘turma do pinéu’, como o Leminski chamava. Fizemos uma viagem para a praia e o Ivo me mostrou músicas que não eram aproveitadas na banda dele, a Chave, feitas em parceria com o Leminski. Resolvemos fazer um show com
essas canções’’, lembra Juk.
  O baixista conta que a repercussão positiva rendeu um convite para uma apresentação no Rio de Janeiro. Ivo disse que não iria sozinho e então surgiu o Blindagem. ‘‘Eu que dei o nome da banda. Estávamos procurando um nome e um amigo me falou de uma notícia que tinha visto: um morteiro tinha atingido a blindagem de um tanque israelense, e não tinha acontecido nada. Pensamos: ‘Blindagem é um bom nome, heavy metal...’’’, relata Juk, entre risos.
  Ele recorda que aos poucos, em apresentações no circuito cultural de Curitiba, em locais como o Paiol, o Centro de Criatividade do São Lourenço e o Palco Flutuante do Passeio Público, o Blindagem foi chamando atenção. ‘‘Por mais que o cenário musical parecesse menor à época, acho que era mais atrativo para quem fazia música própria. Não havia tanto mercado de bar. Hoje, você vê grandes músicos e grandes bandas em
Curitiba obrigados a tocar covers
nos bares’’, diz Juk.
  Com algumas aparições na mídia nacional, o Blindagem conseguiu contatos que renderam oportunidades de lançar discos por grandes gravadoras, como Polygram, Continental e Warner. Nesses 30 anos, a banda lançou sete discos, entre álbuns e relançamentos.
  O baixista afirma que hoje o Blindagem não é tão famoso no restante do Brasil como é no Paraná, mas deixou sua marca. ‘‘O Blindagem é bem conhecido, mas não dá para dizer que é um sucesso nacional. Tivemos nosso momento, tocamos fora daqui, conhecemos pessoas no meio artístico em todo o Brasil, mas nunca ‘estouramos’. O importante é que nos preocupamos em fazer as coisas com seriedade. O que vale para nós são momentos como um show que fizemos há algumas semanas em Pato Branco. Havia um público de aproximadamente 1.500 pessoas, e destas umas 300 eram jovens entre 18 e 22 anos, cantando com a gente músicas que gravamos há 28 anos. Isso mostra que a nossa música ficou’’, explica Juk.
  Calejado, o Blindagem segue ativo num cenário musical em que as bandas paranaenses continuam com dificuldades para conseguir destaque. Ivo aponta que o preconceito do próprio público curitibano prejudica os artistas locais.
  ‘‘Nós estamos tão próximos do eixo Rio-São Paulo, e você vê que de Porto Alegre e Brasília, que são mais distantes, saem tantas bandas que conseguem destaque nacional... Eu sempre digo que o Paraná e Curitiba, especialmente, são o último bairro de São Paulo. As pessoas daqui não acreditam nos artistas da terra. Show só vale alguma coisa se for de gente de fora’’, afirma o vocalista. ‘‘O curitibano em si é muito crítico, tanto que qualquer produto cultural é primeiro lançado aqui para ver se vai dar certo. O curitibano, para aplaudir alguma coisa, é f*. Isso
é uma m* que acaba puxando os artistas para trás’’.

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