Conservatório do rap



O rapper Cabes, 23, não gosta de distinções. Para ele, pouco importa se a música é feita na periferia ou no centro, onde sempre morou. "Se o trabalho for bom, qualquer um vai gostar", acredita.
Mas a verdade é que suas rimas situam-se entre dois mundos. Não têm o apelo comercial de um Marcelo D2. Tampouco abordam a realidade de quem corta um dobrado por causa da pobreza. Trata-se, portanto, de uma espécie de "rap alternativo", como ele prefere chamar. "Não quero ficar batendo na mesma tecla, repetindo o que já é feito", explica.
Porque o hip-hop está acima de classes. É uma jovem cultura transnacional, que representa para a contemporaneidade o que o rock já representou um dia. E por mais que o senso comum ainda o associe apenas ao gueto, há rap para todos os paladares e públicos - do motoboy ao universitário cabeça, da patricinha ao traficante. O que não existe é visibilidade para todos os subgêneros.
Diante dessa situação, Cabes escolheu o caminho correto: fazer o melhor e evoluir sempre, pois uma hora o reconhecimento vem. Ou, em suas próprias palavras, "se profissionalizar". Matriculou-se no curso de Teoria Musical do Conservatório de MPB e mergulhou em seu estúdio caseiro. Também fundou, com outros produtores e rappers da cidade, o coletivo Track Cheio, para viabilizar gravações e eventos.
O resultado dos primeiros anos de labuta acaba de ganhar as ruas: Todo Dia é Assim, o CD de estréia. "Eu sei que o pessoal não quer mais ouvir CD, só MP3. Mas quis prensar uma tiragem justamente pelo profissionalismo", diz o MC.
Musicalmente, o álbum chama a atenção por conta das bases e colagens criativas, bem acima da média da produção local. As rimas também buscam fugir do óbvio, tratando de temas mais ligados ao seu cotidiano. E se o tiro às vezes não acerta o alvo, pelo menos não sai pela culatra.
Tanto que Cabes já começa a mostrar seu trabalho por aí. Fez shows no Rio de Grande do Sul, Santa Catarina e até no Paraguai. Em maio, vai lançar o CD em São Paulo. Entre um show e outro, ganha a vida produzindo gravações de outros artistas, trilhas sonoras e material
publicitário.
"Tudo o que eu faço tem a ver com música. Foi uma opção de vida", afirma, em mais uma prova de que, para ele, tudo é uma coisa só.
Para saber mais, acesse www.myspace/cabesmc.

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