Os atletas paranaenses pedem passagem. De acordo com a lista mais recente divulgada pelo Comitê Olímpico Brasileiro, 659 atletas do Brasil vão participar dos Jogos Pan-americanos deste ano, no Rio de Janeiro. Destes, 46 são do Paraná, sendo 14 de Curitiba e região.
  Os representantes da terra do leite quente estão espalhados por modalidades tão diferentes quanto vôlei de praia (Emanuel) e esgrima (Athos e Ivan Schwantes), luta greco-romana (Iuri Estevão) e natação (Felipe May Araújo). Todos partilham do entusiasmo pelo Pan ser realizado no Brasil.
  O triatleta Juraci Moreira Júnior, de 28 anos, participou de duas olimpíadas (em Sidney 2000, foi o 21º; em Atenas 2004, foi o 41º) e tem no currículo títulos de campeão brasileiro e do Sesc Triatlo Caiobá, a mais importante prova da modalidade no Paraná. Mas esta será a primeira vez que ele participa dos Jogos Pan-americanos.
  ‘‘Sempre brinco dizendo que não fui aos últimos Pans porque queria estrear no Pan do Brasil. Daqui a 50 anos, vou poder falar que teve um Pan no nosso país e que eu participei. É como estar em casa, a locomoção é mais fácil, e a família vai para o Rio para torcer’’, diz Moreira, que sonha com pódio. ‘‘O Brasil está no triatlo com três homens e três mulheres com chances de medalha. Não existe nenhum favorito disparado para a prova, ninguém muito acima dos outros.’’
  O triatleta divide os treinos entre Curitiba, Brasília, onde mora seu treinador, e o exterior (há poucos dias, estava nos Estados Unidos). Ele conhece os percalços de quem se atreve a praticar um esporte que não seja futebol no Brasil. ‘‘Falta patrocínio em todo esporte. Eu, felizmente, hoje não sofro com esse problema, mas muitos colegas meus, sim’’, lamenta.
  Davi Romeo, do ciclismo em pista, é outro curitibano estreante no Pan. O atleta de 20 anos, campeão nos Jogos da Juventude, Jogos Abertos do Paraná e no Brasileiro Júnior, participará das provas de velocidade, em grupo e individual. No Brasil, Curitiba é referência no ciclismo, tanto que a Seleção Brasileira da modalidade treina no Velódromo do Jardim Botânico. ‘‘Vai chegando o dia do início do Pan e a ansiedade aumenta. Você nem consegue tomar café da manhã direito’’, brinca Davi Romeo.
  Atletas e treinadores destacam que, além da mobilização popular durante o período do Pan, os jogos vão contribuir para uma maior difusão de modalidades esportivas que recebem menos atenção da mídia. ‘‘Acredito que o Pan vai deixar dois grandes legados. O primeiro será a infra-estrutura, de estádios e complexos esportivos, que serão depois usados pela população. O segundo será uma cultura do esporte. As pessoas vão conhecer mais sobre várias modalidades e começar a praticar’’, opina Moreira.
  ‘‘O ciclismo está aparecendo mais nos jornais, na televisão. Os ingressos para as provas foram todos vendidos, então, vamos ter torcida. Se os ciclistas brasileiros ganharem medalhas dentro do país, todo mundo vai ver e o esporte pode crescer ainda mais. Você precisa vencer para ser valorizado, como aconteceu com a ginástica, por exemplo. A molecada só quer praticar os ‘esportes de medalha’’’, explica Davi Romeo.
  O técnico da Seleção Brasileira de Ciclismo, Adir Romeo, pai de Davi, acredita que o Pan pode desencadear um processo de quebra da monotemática futebolística no esporte brasileiro. ‘‘Esses dias, eu estava vendo o jogo da seleção de futebol e é possível perceber que há na população um vocabulário da área, uma cultura, um jeito de analisar. Outros esportes, como o ciclismo, não têm isso no Brasil. O Pan pode despertar o interesse da imprensa e da população para compreender e dominar os detalhes de outras modalidades’’, afirma o treinador.
  ‘‘No Brasil, pequenas infra-estruturas estão sendo criadas. O que falta é um algo mais, que é a solidificação das entidades de administração esportiva, hoje dependentes dos mecanismos públicos de incentivo. Se elas se fortalecerem, poderão ‘vender’ o esporte. Precisam estar seguras de calendário, de planejamento. É necessário ter a casa bem estruturada’’, diz Adir.

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