Toda vez que eu ia ao Estádio do Café, seja para torcer ou para trabalhar, não deixava de dar uma passadinha, antes de o jogo começar, ali no alto das cadeiras cativas, já no final das cabines de imprensa, do lado esquerdo. Era garantia de boa conversa, boas risadas, muita cornetagem e causos na rodinha que se formava nesse pedaço do estádio. Tudo era puxado por um dos caras mais agradáveis que conheci nestes 15 anos em que moro em Londrina. Com sua barba, careca e bom humor inconfundíveis, Agostinho Garrote era o anfitrião do pedaço. Não deixava nunca de perguntar da família. Antes de o jogo começar, me despedia e seguia para meu posto com a bênção dele: "muita paz pra você". Era tão marcante que eu e outros companheiros da imprensa esportiva acabamos incorporando esse seu chavão e nossas despedidas são sempre com essa 'recomendação'.

Se hoje o Londrina está vivo e forte, muito se deve a Agostinho. Foi ele que assumiu a bronca quando o clube estava à beira do fechamento, no fim de 2004. Dizia sempre que pegou o "bastão no chão" para terminar a corrida, fazendo uma analogia à prova de revezamento no atletismo. "Enquanto houver um só torcedor, o Londrina nunca acabará", era assim que justificava a louca decisão de assumir um time afundado em dívidas e sem perspectivas à época.

Foi pouco mais de um ano de mandato. Foi neste período que pude conviver mais com Garrote. Numa época em que a relação clube/imprensa era muito diferente e menos engessada como hoje, ele rendia manchetes e mais manchetes. "Thiaguinho, tem um jogador chegando aí, mas eu NEM vou falar quem é. Não adianta insistir que NEM vou falar", ligou-me uma vez, dando a deixa de que havia contratado o meia Nem. Como ele gostava de trocadilhos.

Quem chegava à sede do clube, no VGD, se deparava com um carro estacionado lá na frente. Dentro dele havia um manequim, desses de loja, todo vestido, inclusive com óculos e chapéu. "É pra afugentar os ladrões. Sabe como é, né, o seguro tá muito caro", justificava. Foram muitas passagens engraçadas, outras tensas como no dia em que rasgou um exemplar da Folha no meio do campo e diante dos jogadores e outros repórteres.

Garrote se foi nesta quarta-feira. Pode não ter sido um dos melhores presidentes em termos de resultados e administração, mas foi um dos mais marcantes e importantes. Que seu exemplo tenha ficado e que outros torcedores e dirigentes mantenham o Londrina firme e forte como forma de homenageá-lo. Agostinho, muita paz pra você aí onde estiver.

mockup