O Banco Central reduziu a taxa Selic para 6,75% ao ano. E daí?
Na quarta-feira (7) o Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) anunciou a decisão de reduzir a Selic de 7% para 6,75% ao ano.
Embora a notícia esteja presente em todos os meios de comunicação, não é tão trivial assim entender como tal decisão impacta nosso cotidiano e a terminologia utilizada também angustia as pessoas menos familiarizadas.
Tento aqui simplificar um pouco esse entendimento e permitir que o leitor possa fazer suas próprias análises.

Só para lembrar
A taxa Selic (Sistema Especial de Liquidação e Custódia) é definida por um comitê que se reúne a cada 45 dias e determina quais os juros que serão aplicados nas operações entre bancos pelo período de um dia.

É a taxa básica de juros
Funciona assim: no final do dia, os bancos não podem fechar tendo mais saídas do que entradas de dinheiro (fechar no negativo) e para evitar que isso aconteça, pedem dinheiro emprestados (na verdade negociam títulos) aos outros bancos pagando juros da taxa Selic.
Como não há riscos de calote nessa operação e também não é a ideia que gere lucros, ela é a mais baixa taxa praticada no País, por isso chamada de taxa básica.

Nós não temos acesso a essa taxa
Se eu, você ou as empresas desejarem dinheiro empresetado, sobre essa taxa básica, teremos que arcar com os custos da operação, o risco de calote, o lucro dos bancos, as margens para imprevistos e outros penduricalhos, capazes de elevar a taxa a 300% ao ano, como é o caso do cheque especial.
No fim e ao cabo, o valor da taxa Selic é responsável por apenas 20% da formação de custo do dinheiro, para nós, simples mortais.

Lentidão na queda dos juros para o consumidor
Isto ajuda a explicar porque os juros para nós consumidores demora mais a cair.
Embora a taxa Selic tenha sido reduzida, somente com a geração de empregos e renda é que ocorrerá uma real queda na inadimplência, responsável por grande parte da sobretaxa sobre o juro básico.
Também há de se considerar a falta de concorrência entre os bancos emprestadores, o que os deixa muito à vontade para praticarem taxas estratosféricas.

Tá. E como isso afeta meu dia a dia?
O efeito direto mais relevante é sobre a atividade econômica. Com a Selic mais baixa, cai, em alguma medida, as demais taxas de juros, o que estimula o consumo das pessoas e o investimento das empresas, gerando mais empregos e renda.

Melhora para quem tem dívidas
Empresas e consumidores endividados passam a ter acesso a crédito mais barato, podendo tomar dinheiro emprestado a juros menores ou trocando dívidas com juros maiores por dinheiro a juros menores.

Mas piora para quem vai viajar para fora
No curto prazo, a queda na taxa Selic, que remunera os títulos da dívida pública, tende a afugentar o capital estrangeiro que investe neles, diminuindo a oferta de dólares, fazendo com que esta moeda se valorize, tornando mais caro o custo das viagens internacionais.

E diminui a rentabilidade de quem poupa
Para quem tem aplicações em tesouro direto ou na poupança, a rentabilidade cai.
Uma opção é mudar para o mercado de ações já que as empresas se beneficiam com a queda na taxa de juros e, com potencial de maiores ganhos, suas ações valorizarão mais.

E de forma indireta
Dois benefícios são: cai o custo da dívida pública, já que os juros pagos para rolar essa dívida diminuem (lembrando que, em última instância quem paga essa dívida somos nós).
O segundo benefício é o aumento da arrecadação de impostos pelo governo na medida em que aumenta a produção e o consumo (uma maior arrecadação geraria mais benefícios à população).

Mas nem tudo são flores
Há situações que podem levar ao aumento da taxa Selic. Riscos externos quanto a política americana, que pode elevar os juros de lá e afetar os juros de cá.
Também se o nível de endividamento do governo continuar a subir da forma que vem subindo, certamente haverá necessidade de aumentar a taxa básica de juros para poder captar recursos para sustentar a dívida.

Marcos J. G. Rambalducci, economista, é professor da UTFPR. Escreve às segundas-feiras. [email protected]

mockup