A política é escandalosa porque tem como racionalidade inerente o desentendimento, lembra o intelectual francês Jacques Rancière. Sua capacidade de impressionar e provocar atritos se dá pelo fato de que é a igualdade seu princípio fundamental. Igual em quê? Igual a quem? Igual por quê? É em torno dessas questões incômodas, sem consenso numa sociedade fundada na desigualdade e deficiente no respeito às diferenças, que se dá a política.
O desentendimento, portanto, caracteriza o debate público. O desafio prévio é compreendê-lo como ponto de partida. Aberto o debate, apresentados os argumentos, definidas as visões de mundo presentes na arena política, a busca é pelo consenso, ou seja, um cruzamento de valores e práticas que tenham no bem comum seu repouso. É nessa busca por algo universal que a política se torna corrosiva, por conta dos inúmeros processos de irracionalidade que contornam os distintos interesses na preservação de certos tipos de desigualdade.
Num momento histórico em que direitos sociais são combatidos e privilégios de classe são defendidos, a questão do desentendimento vem à tona e pede licença para iluminar os passos da reflexão. Nenhuma instituição é um mundo paralelo, no qual uma ideia de confraria – gente supostamente "normal" vivendo sob auspícios metafísicos – rege sua existência. Todo poder instituído deve se abrir às críticas e se perceber momento da vida social. Nesses termos, as regras que "lá dentro" vigoram devem ser exatamente as mesmas que vigem do lado "de fora".
E o que querem os típicos cidadãos do lado "de fora"? Querem direitos para todos ou penduricalhos de que só meia dúzia de gatos pingados pode se valer? Querem que generosas fatias dos escassos recursos públicos sejam destinadas a delírios particulares ou sejam investidas em educação, saúde e ciência, de cujos resultados a maioria da população é beneficiária? Afinal, para voltar ao desentendimento como racionalidade própria da política, o que conduz ao interesse geral, a manutenção de privilégios de castas ou um amplo debate sobre o papel da educação numa sociedade que venha a ser mais democrática e igualitária?
O problema é que o desentendimento prevê que opções sejam postas à mesa e decisões sejam tomadas. Não é razoável que, numa realidade em que a democracia é a toda hora reivindicada na forma e no conteúdo, uns sejam mais iguais do que os outros. Para driblar esse incômodo típico da política, os donos do mundo atacam direitos previdenciários e encobrem privilégios tributários; insurgem-se contra garantias trabalhistas e fogem de maneira alucinada às mais tímidas reformas política, agrária, midiática etc. Fingem defender modernas mudanças para, no fundo, manter velhas estruturas.
O consenso prévia e forçosamente anunciado não quer que a complexidade seja enfrentada, nem na prática, nem na teoria. O desentendimento só é evitado quando de tudo se faz para impedir que um golpe seja chamado de golpe, para ressuscitar tragédias e transformá-las em farsas. Infelizmente, o expediente é bastante antigo.

Marco A. Rossi é sociólogo e professor da UEL
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