Exibida em horário nobre da TV3, na Catalunha, entre 2015 e 2017, a série "Merlí", criada por Héctor Lozano, surpreende pela forma como aborda a escola e suas múltiplas relações sociais. Trata-se de um enfoque dinâmico, em que personagens e cenários se entrecruzam para responder aos inúmeros desafios da educação contemporânea. No Brasil, as três temporadas da série catalã, com seus 40 episódios, estão disponíveis para assinantes da Netflix.

Merlí é um professor de filosofia que, aos 60 anos, esbanja inventividade e disposição para ensinar. Meio turrão, às vezes antipático, ele desperta o interesse de seus alunos pela filosofia e as grandes questões existenciais e coletivas. Atrás de um sujeito "invencível", esconde-se um homem carente, solitário, que se completa nas trocas que estabelece com seus "peripatéticos", apelido que empresta aos seus aprendizes, tal qual Aristóteles, que caminhava ao ar livre com seus discípulos enquanto lia e dialogava, num contato sensível de ideias com o mundo real.

Cada episódio de "Merlí" tem por título e tema central um filósofo ou grupo de pensadores, como é o caso dos chamados pré-socráticos. Da Antiguidade Clássica à Modernidade Líquida, o professor Merlí vai de Protágoras a Zygmunt Bauman, passando por Hegel, Marx e Engels, chegando a Walter Benjamin, Michel Foucault, Judith Butler e Slavoj Zizek. O objetivo é traçar paralelos entre o saber filosófico e a vida concreta dos "peripatéticos", em seus dramas pessoais e familiares, nas tramas da juventude, nos descaminhos da Espanha, da Catalunha e, no limite, da humanidade.

Para onde pode levar, afinal, a educação? Em "Merlí", a filosofia – e poderia ser a sociologia ou a matemática – é aberta e tem como desejo instigar novas ideias para diferentes condutas. Assim, a turma vai se transformando durante as aulas, deslocando certezas, superando preconceitos, acompanhando o nascimento de mundos singulares e compartilháveis. A filosofia do professor Merlí ultrapassa os muros da escola e orienta os alunos em suas escolhas, tanto no nível mais simples e cotidiano quanto na complexa decisão sobre qual futuro profissional cada um pode ou deve seguir.

Graças à bela e humana imperfeição de suas personagens, a série da TV3 faz desabrocharem na tela alguns dos temas mais universais ao alcance de reflexões pertinentes. "Merlí" lida com a diversidade sem estereótipos, preferindo valer-se de raios-X retirados do corpo da realidade. Tabus culturais, dilemas da educação pública, a paralisia social de ranço conservador, a sanha da hipercompetitividade e tantos outros assuntos atravessam os episódios e se encontram numa filosofia que não é só para o ambiente escolar, mas, essencialmente, para as estradas empedradas e admiráveis da vida.

É comum, ao longo da série, ouvir que Merlí cometeu mais uma de suas "merlinadas". Quando prevalecem autonomia e autenticidade, é de esperar que ações se tornem símbolos de seus agentes. É de educadores capazes de praticar as mais lúcidas e revolucionárias "merlinadas", portanto, que a educação em todo o mundo tanto necessita.

Marco A. Rossi é sociólogo e professor da UEL
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