Mediações
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018
Por Marco A. Rossi 

À primeira vista, a realidade engana. A percepção imediata dos fenômenos revela sua aparência e permite o exercício de alguns sentidos (identificação de forma, textura, odor, sabor ou sonoridade). Nisso, contudo, não está disponível a sua dimensão "mediata", ou seja, aquela que só é possível elaborar aos poucos, num exigente processo de construção e reconstrução do conhecimento.
Karl Marx, que completa 200 anos agora em 2018, oferece o exemplo da população de uma cidade para refletir sobre a totalidade social. Para saber o que é a população algo amplo e escorregadio , é preciso identificar as classes sociais que a compõem. Depois, vasculham-se as relações de trabalho que as conectam. Dessa constatação surgirá um conjunto enorme de questões relacionadas com o comércio das mercadorias fabricadas e a distribuição da riqueza por formas políticas e econômicas de apreensão da produção coletiva. Na superfície de tudo, verificam-se as práticas de consumo, os modelos de organização social em grupos, as ideias gerais em circulação, as formas de vida adotadas por indivíduos etc. Do mais complexo e abstrato ao mais concreto e simples, a viagem do conhecimento induz a um processo permanente de montagem e desmontagem das aparências, daquilo que é dado imediatamente aos sentidos.
O conhecimento prudente, portanto, não pode abrir mão das "mediações" para abordar de forma consistente a realidade desejada. Para escapar ao imediatismo das percepções, o sujeito deve conceber o objeto como desafio histórico, como um fenômeno que tem origem, inúmeros desdobramentos e se caracteriza, essencialmente, por contradições. A contradição, aliás, é o princípio básico do movimento que define a existência humana e integra de modo dinâmico passado, presente e futuro.
Quando se opta por combater aspectos do presente por meio de ações do passado (ainda que a roupagem pareça inédita), o futuro se torna nebuloso. A violência nas grandes cidades brasileiras, por exemplo, não se refere apenas ao crescimento das atividades criminosas da população mais pobre, criminalizada com frequência imemorial. Há quem apele para expressões como "metástase" para tentar legitimar duro combate ao "crime organizado", deixando de revelar que a ideia de organizações criminosas só é possível com facilitação e promoção de agentes do poder público, desde as corruptas guarnições de repressão imediata até os tribunais que julgam com lenidade parceiros e compadres.
Existem mediações, portanto, que escapam às apressadas interpretações acerca da violência urbana, a qual precisa ser desmontada para, após a identificação de suas inúmeras parcelas, ser montada novamente. O problema é que nesse processo irão surgir classes, grupos e indivíduos considerados insuspeitos e "de bem". O conhecimento prudente converte-se, então, em ação conveniente, feita sob medida para acariciar o populismo desesperado dos donos do poder e a miséria da política que tomou de assalto as instituições da vida nacional.
Alternativas a esse profundo mal-estar contemporâneo dependem de novas e melhores mediações, para a construção de totalidades mais abrangentes e a apresentação de um projeto público mais inteligente e verdadeiramente democrático.
Marco A. Rossi é sociólogo e professor da UEL
[email protected]


