Em tempos de extremismos teóricos e práticos, reunidos para obstruir reflexões pertinentes e ações consequentes, é oportuno revisitar memórias e tradições. Nesse sentido, é importante separar o joio da joia e restituir o lugar das ideias e das coisas.

O liberalismo é uma das vítimas preferidas do pensamento binário, que vê tudo na base do "sim" ou "não", "certo" ou "errado", "nós" ou "eles". Entre seus adeptos menos caprichosos ou em meio àqueles que o abominam de pronto, o liberalismo é reduzido a esquematismos simplórios. Ora aparece como doutrina do estado mínimo, tornando todo liberal um privatista insensível às questões sociais, ora surge como campo de atuação dos que só pensam em temas individuais, portanto apolíticos ou indiferentes às aspirações humanas mais universais. Precipitadamente, o liberalismo é empobrecido para que se possa descartá-lo como alternativa a quem não queira rastejar diante de gurus intocáveis ou manuais recheados de lugares-comuns, frases feitas e fórmulas da boa conduta.

Se apreciado sem pressa nem preconceitos, o liberalismo pode ser entendido como uma concepção filosófica da existência, na qual repousa a defesa de ampla autonomia aos indivíduos, que reivindicam, de forma recíproca, respeito à sua dignidade. Há, é claro, dimensões econômicas (que preveem mercados livres e competitivos e postulam atividade pública em áreas de vantagem inquestionável) e políticas (que acreditam na extensão dos direitos e não abrem mão de encarar as formas estatais inquisidoras) na tradição liberal, que, por sua vez, se submetem inteiramente à complexidade de suas determinações filosóficas. O liberal, portanto, está inscrito nas trilhas do progressismo e do humanismo.

Em rigor, o liberalismo é difícil de definir por ser uma tradição pluralista e depositária de contribuições teóricas de diversos e distintos autores. Ainda assim, para lembrar um termo bastante utilizado pelo sociólogo francês Raymond Boudon (1934-2013) em seu livro "Os Intelectuais e o Liberalismo", voga em toda parte, principalmente nos espaços supostamente mais intelectualizados, uma forte tendência "iliberal". Por conta disso, o debate em torno de ideias e a análise franca dos fenômenos da realidade ficam travados e lamentavelmente ideologizados. O caráter iliberal da razão prática – e isso vale tanto para a esfera pública quanto para os espaços reservados das vidas particulares – verifica-se, por exemplo, quando toda a realidade é de antemão abocanhada por aprisionamentos teóricos: nada existe fora de explicações prévias, conceitos já selecionados, inimigos já declarados.

Quando refém de ideias vendidas no varejo a gosto do freguês, o pensamento se despedaça e passa a formular listas repletas de adjetivações e prescrições. Nesses termos, parece impossível que existam liberais de esquerda, que defendam a democracia e o caráter republicano de gestão dos recursos públicos; que se sintam à vontade para sair em defesa da diversidade das formas de vida e, ao mesmo tempo, se insurjam contra orquestrações coletivas que intimidam ou lincham singularidades. Por ter de enfrentar tantas adversidades, o pensamento liberal, em toda a sua complexidade, é ainda uma utopia universal em tempos de negação do outro e desincentivo à crítica autônoma.

Marco A. Rossi é sociólogo e professor da UEL [email protected]

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