Seu Francisco Rossi Filho nasceu na cidade de Chavantes, no interior paulista. Gostava de dizer que o tempo mais feliz de sua vida havia sido o único semestre em que pudera frequentar a escola. Deu tempo para se alfabetizar. Depois, por conta da dura vida na roça, viu-se obrigado a ajudar a família no esforço pela sobrevivência. Seu Rossi, como era respeitosamente tratado, ganhou o mundo ainda garoto. Cresceu, casou-se com Dona Aparecida, tornou-se um exímio motorista de ônibus, teve quatro filhos e nove netos. Um deles, quase o mais novo, assina A Cidade Futura, na Folha de Londrina, e é professor da Universidade Estadual de Londrina.
Dois dias atrás, Seu Rossi completou o primeiro centenário. Nasceu em 1º de maio de 1918, no dia do trabalhador. Pouca coisa é mais representativa e simbólica do que um digno "operário das ruas e estradas" nascer numa data que traz à memória lágrimas, suor e sangue. Apesar de ter partido bem antes do desejado e combinado, aos 77 anos de vida, Seu Rossi é ilustre exemplo do que se deve honrar e pensar a respeito das lutas dos trabalhadores espaço e tempo afora.
A primeira obstrução ao pensamento é chamar de dia do "trabalho" um momento histórico que pertence aos "trabalhadores". Parece pouca coisa, uma inocente opção por nomenclatura, mas não é. Ao dar um tom abstrato à comemoração – afinal, tanta coisa pode ser encaixada na definição de "trabalho" –, a ideia é despersonalizar uma questão de classe, que coloca no cenário público e político gerações de homens e mulheres a reivindicar melhores salários e condições decentes nas lides de produção e circulação de mercadorias e serviços. Além disso, os trabalhadores são de corpo e alma, vivem em algum lugar, necessitam de comida, proteção e arte. Não são seres hipotéticos. Por isso, não são todos iguais. Ao homenagear o trabalhador, e não o trabalho, empresta-se viço aos verdadeiros protagonistas da história.
Outra tentativa de distorcer e corromper a imagem dos trabalhadores é tornar o 1º de maio uma data festiva, cheia de pirotecnias, sorteios de brindes, música emplastrada em palcos improvisados de parques e avenidas nas grandes cidades. Sindicatos pelegos e políticos oportunistas comparecem à frente das multidões para fazer campanha fora de hora, mentir e defender a vitória dos antagonistas: os capitalistas e toda sua visão reduzida da realidade (uma realidade que lhes é, aliás, intransferível).
Seu Rossi, que recebia a família em casa para trocar abraços e cumprimentos por seu aniversário, preferia um feriado de reflexão, conto de "causos", lembranças dos amigos e suas incríveis histórias de resistência e esperança. Fazia isso sem teoria alguma, sem apelo a concepções ideológicas, nada. Era só sentimento, capacidade de se colocar no lugar do outro, saber-se parte de algo maior, de uma classe social, de uma imensa, complexa e latina humanidade. Era fabuloso cada 1º de maio em sua varanda de pedras e flores, onde a história se expressava num jardim cultivado pela beleza da amizade e pela pureza do coração. Seu Rossi era, sem dúvida alguma, um sujeito com lenço, documento e muita história para contar.

Marco A. Rossi é sociólogo e professor da UEL - [email protected]

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