Richard Sennett, sociólogo estadunidense, publicou em 1974 uma obra ainda atual e instigante. Em "O Declínio do Homem Público", ele investiga, no mundo moderno, o enorme descompasso entre as esferas pública e privada. De um modo geral, a experiência comunitária cede lugar às vaidades individuais, enfraquecendo a organização coletiva. Com isso, além do esvaziamento político da sociedade, agiganta-se o que Sennett denomina de "tiranias da intimidade".

A perda da dimensão comunitária tem lastro. Sennett indica que, sob o domínio romano em decadência, as relações coletivas já se abriam para questões privadas, fato que preenchia o espaço público de temas antes pertencentes às aflições do espírito. A despolitização, como efeito da privatização das ideias e da mesquinharia das ações republicanas, entrou em cena a galope, misturando elementos domésticos e públicos, pervertendo o sentido da vida e desmoronando impérios.

A ascensão da vida íntima nos espaços públicos jamais cessou. Hoje, numa época marcada por comunicações instantâneas, a interatividade inunda a vida comum de assuntos que dizem pouco respeito à coletividade. A fragmentação da existência cava abismos entre os indivíduos e acirra conflitos à base de interesses de grupelhos. Os encontros humanos dependem de lápides de autoajuda e, no limite, convites a pequenas expressões cotidianas de barbárie.

O efeito prático das "tiranias da intimidade" é a transformação de tudo em dolo. O debate é obstruído, uma vez que as opiniões em circulação não se veem dispostas a receber parêntese ou nota de rodapé. No lugar do ponto de interrogação, com fontes humildes e minúsculas, abundam os pontos de exclamação, antecedidos por letras garrafais, como se seus agentes estivessem vociferando, rindo da própria miséria inumana.
Não é incomum que esse tipo de "interlocução", que inspira manifestações de ódio e serve como pano de fundo para uma sociedade cada vez mais amedrontadora e violenta, ocorra entre indivíduos que nunca aprenderam a dialogar sobre coisas simples e despretensiosas. Até a conversa a respeito de futebol, culinária ou chuva ao cair da tarde se converteu em disputa. Grassa a infeliz ideia de que todo bate-papo tem de ter vencedor – e que os vencidos precisam ser humilhados. Nesses termos, o íntimo sobressai ao coletivo, e o caráter público da vida em comum se reduz a destaques privados tentando convencer o mundo à volta de que alguns indivíduos merecem mais atenção do que outros, de que alguns grupos de vendilhões da realidade devem gozar privilégios contra os quais outras coletividades sequer têm o direito de se manifestar.
No mundo virtual, falta muita coisa, como já escreveu o jornalista Leonardo Sakamoto: falta amor, empatia, mas falta, acima de tudo, interpretação de texto. Capturados pela tirania de suas vaidosas e quase sempre ocas intimidades, os novos brutos não veem que o contexto exige olhar atento, acuidade reflexiva e reverência diante da história. Em vez disso, preferem expor o terço de suas sombrias orações, as quais não conseguem esconder o medo que têm de encarar os labirintos da memória. Por isso, odeiam o próximo como, no fundo, odeiam a si mesmos.

Marco A. Rossi é sociólogo e professor da UEL
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