Em 1835, quando tinha apenas 17 anos e estava prestes a ingressar na Universidade de Bonn, Karl Marx redigiu "Reflexões de um Jovem sobre a Escolha de uma Profissão". Trata-se de um simples texto escolar, ingênuo e romântico, em que o autor propõe uma análise sobre o conjunto das escolhas humanas. Marx, de início, afirma que, diferentemente dos animais, aos seres humanos são dadas opções no tocante a quais ideias alimentar, quais objetivos perseguir. Essa característica, definitivamente, coloca o "animal" humano em vantagem na natureza.
Chamados ao estado de vida em que podem brilhar mais, os sujeitos não têm como ignorar que um lugar na história lhes foi conferido. Assim, a trajetória de cada um e de todos nunca se dá em vão. O jovem Marx aconselha as pessoas a se decidirem sempre em prol da humanidade. Afinal, só pode ser feliz aquele que promove a felicidade dos outros. Além disso, é preciso ter em mente que algo sempre irá escapar – a vida, nesse sentido, não pode ser previamente definida.
Nos instantes que anunciam o fim, quando se torna inadiável um exame autocrítico da existência, a generosidade terá abraçado quem se absteve de pensar somente em si mesmo e vislumbrou horizontes solidários, éticos, compartilháveis.
Seria interessante que textos como o de Marx fossem apresentados aos jovens atuais. Em vez de provas que pouco atestam ou atividades miméticas que não estimulam ousadia nem prazer, escolas e universidades deveriam instigar a escrita criativa, a linguagem alternativa, a expressão das diversas identidades presentes nas sociedades contemporâneas. Há formas de ver e viver que nunca são apresentadas ao grande público, passam longe da imprensa empresarial, são ignoradas por livros didáticos e paradidáticos. No limite, a realidade conhecida é monitorada por interesses minúsculos (mas poderosos), que impedem o desvelamento da história. As pessoas, então, não conseguem brilhar.
Eduardo Galeano, saudoso escritor uruguaio, adorava vasculhar verdades perdidas. Em muitos de seus livros, como, por exemplo, "Espelhos" e "Os Filhos dos Dias", ele narra descobertas nunca creditadas, trajetórias de personalidades renegadas, detalhes de vilanias tidas como atos de bondade ou heroísmo. Numa dessas histórias que apontam o avesso do mundo, Galeano fala do Natal num mundo hegemonizado pelas leis do mercado: no lugar da simplicidade de Jesus, a ostentação de presentes caros, festas e ceias suntuosas; em vez da partilha de afetos, a busca por bibelôs insensíveis; indiferente à manjedoura no estábulo (num lugar onde nunca nevou), reina a árvore sob clima gélido, iluminada por milionárias campanhas publicitárias. Os vendilhões que Jesus havia expulsado do templo comandam, hoje, as comemorações de seu aniversário.
Que o presente de Natal que chegue às mãos e ao coração de todos seja uma breve reflexão sobre o sentido das opções e ações humanas.

Marco A. Rossi é sociólogo e professor da UEL [email protected]

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