AS FIGURAS DO EXCESSO
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018
Marco A. Rossi 

Uma das características mais marcantes do mundo contemporâneo é o desperdício. Em todos os níveis da existência, esbanja-se para muito além do razoável. Trabalha-se demais, consome-se demais e, em seu negativo uma espécie de desperdício às avessas , vive-se de menos.
A vida que se perde nos arranjos desamorosos da organização social capitalista é resultado do que o antropólogo Marc Augé, no seu livro "Não lugares", publicado na França em 1992, chamou de figuras do excesso. Três dessas figuras marcam de forma indelével nossa época: a do tempo, a do espaço e a do ego.
A dimensão do tempo que perpassa os indivíduos é dividida em duas partes mais ou menos iguais. Uma delas aponta uma impressionante aceleração histórica, ou seja, um vasto conjunto de acontecimentos que se precipita de maneira cada vez mais veloz e inusitada. A outra metade, problemática em suas consequências, é a superabundância factual, um fenômeno que revela quanto de informação recai sobre as pessoas, produzida para garantir o espetáculo desta era de incertezas crescentes e frustrações a quilo. Nunca é demais recordar que informação não orienta condutas responsáveis, não engendra mentalidades substantivas. Sem filtros nem articulações, a informação não se converte em conhecimento e o conhecimento, ainda que dilatado, não é sabedoria se não for compartilhado e usado para o bem-estar humano.
Se o tempo assombra pelo conteúdo incalculável que carrega, o espaço assusta por sua redução progressiva. Tanto os meios de comunicação quanto os de transporte encurtaram distâncias e tornaram o alheio algo próprio. Aquilo que antes era impossível de ver ou tocar, apresenta-se à porta. Mercadorias atravessam rapidamente oceanos, comportamentos se dispõem em padrões de vida que se assemelham de modo impressionante. Aqui, ali e acolá, o mundo parece homogêneo.
A globalização capitalista, em síntese, criou um sistema-mundo em que velhas fronteiras pouco demarcam. Via consumo de bens materiais ou simbólicos, não há limites espaciais nem tabus culturais. Preencher a vida de objetos e ideias que irão torná-la ainda mais descartável no tempo e no espaço passou a ser o elixir do desperdício.
Nesses termos, a terceira figura do excesso de que fala Marc Augé apresenta-se como a cereja do bolo. O ego (ou a exaltação do indivíduo e suas particularidades) ocupa o centro das relações sociais, tornando suas referências intransferíveis um novo totem, que todos devem adorar e aceitar como justo e correto. Por isso, multiplicam-se as vaidades entre os sujeitos, que infestam o espaço público de temas desinteressantes e opacos, quando não descabidos e mentirosos A imprensa comercial, a cultura geral e a educação formal não conseguem, via de regra, ultrapassar a expressão daqueles que detêm o poder e fazem um mundo à sua (horrenda) imagem e (infeliz) semelhança.
As três figuras do excesso, nesse sentido, inauguram uma era de enormes desafios para a reconstrução de narrativas universais e espaços de convivência que abriguem a diversidade sem perder de vista um projeto que seja, efetivamente, humano.
Marco A. Rossi é sociólogo e professor da UEL, [email protected]


