Em 1849, o escritor russo Fiodor Dostoievski foi condenado à morte por participar de um movimento revolucionário e levado ao pelotão de fuzilamento. Só no último instante, quando os soldados já estavam preparados para atirar, ele foi informado de que sua pena havia sido comutada em prisão na Sibéria. A vida de Dostoiévski mudou completamente a partir daquele dia. De revolucionário, ele se tornaria um ardoroso cristão conservador e um dos maiores escritores de todos os tempos.

Outro grande escritor, o espanhol José Ortega y Gasset, dizia que as únicas ideias que valem a pena são as ideias do náufrago, ou seja, aquelas poucas em que você acredita quando está se afogando no meio do mar. O mesmo pode-se dizer das ideias do pelotão de fuzilamento. Imagine que você está amarrado diante dos seus algozes: quais são os valores e imagens que você, nesse momento, carregaria no coração?

Imagem ilustrativa da imagem Vida e morte dos filhos
| Foto: Shutterstock



Fiz a mim mesmo essa pergunta ontem, quando vi na capa da Folha a imagem do jovem Thiago Cordeiro Orzechowski e de sua mãe, Patrícia. A bela reportagem de Simoni Saris (texto) e Saulo Ohara (fotos) narra a alegria do jovem de 24 anos que ganhou um novo coração. O que mais me chamou a atenção em tudo foi o sorriso da mãe. Aquele sorriso me encheu de esperança e alegria. Quem poderia ser louco de afirmar, diante dessa imagem, que o amor materno é um "mito", uma "construção social" ou mesmo uma "forma de opressão"?

A beleza é a linguagem de Deus, e o sorriso da mãe expressa algo do que existe de mais belo na condição humana. Se estivesse a um passo de morrer, com a arma do bandido apontada para minha cabeça, eu ainda assim acreditaria naquele sorriso. Ele me fez lembrar as vozes queridas e caladas, as antigas Páscoas e Natais, as flores amarelas na pracinha, o Quarteto das Dissonâncias, uma escultura de Fídias, um verso de Sófocles, a oração que Pedro faz antes de dormir.

Patrícia sorriu da mesma forma que outras mães sorriem ao ouvir o coração de seus filhos ainda no ventre. São ocasiões em que o amor e a misericórdia de Deus se mostram com intensidade e clareza únicas.

Ah, meu amigo leitor, como eu gostaria de falar hoje apenas do sorriso da mãe e do coração do filho... Como eu gostaria de não ser obrigado a olhar para os terríveis crimes cometidos ontem na nossa cidade! Uma mulher e um jovem perderam a vida nas mãos de um celerado. Desculpe-me a sinceridade, mas para esse monstro só uma seria a pena realmente justa.

Há a Páscoa e a Antipáscoa. Há um coração de filho que volta à vida e há um coração de filho que deixa de bater. Há a mãe que sorri e a mãe que chora. Coloque-se no lugar dessas três mulheres: a que sorriu, a que chora, a que partiu. Coloque-se no lugar das famílias que foram destroçadas. A vida e a morte dos filhos é o que realmente importa; o resto é silêncio, vaidade e vento que passa.

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