Vida e morte do Senhor da Mata
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quinta-feira, 22 de dezembro de 2016
por Paulo Briguet 

Há exatos 20 anos, em 22 de dezembro de 1996, morria o pioneiro londrinense Olavo Godoy. A despedida ao fazendeiro de 83 anos foi discreta e até mesmo melancólica, considerando a importância que ele teve na história da cidade. Naquela noite, poucos amigos se dirigiram ao velório de Olavo, o que contrastava com a comoção da cidade na morte de seu irmão e companheiro de lutas Álvaro Godoy, em 1979.
Em 13 de janeiro de 1996, numa manhã de sábado, estive na fazenda Santa Helena. Como repórter da Folha, fui até a propriedade para entrevistar a sra. Josyê Rose Baxhix Godoy, então casada com o sobrinho do pioneiro e administradora da propriedade. Enquanto conversava com a sra. Josyê na varanda, vi Olavo Godoy, que apareceu de relance à porta da casa, dirigindo-me um olhar triste.
A fascinante trajetória do pioneiro londrinense inspirou o promotor público Antônio Winkert Souza a escrever o livro "Olavo Godoy A História e o Drama do Guardião da Mata", que li com grande interesse nos últimos dias. O ensaio biográfico recupera informações valiosas sobre o homem que, ao lado do irmão Álvaro, chegou a Londrina nos anos 30 e desempenhou um papel importante na história da cidade, como líder ruralista e defensor da natureza.
Chama a atenção na trajetória de Olavo Godoy o seu conceito avançado de desenvolvimento, que harmonizava os aspectos econômicos e ambientais. Ao mesmo tempo em que se destacou como importante produtor agrícola tendo sido um dos fundadores da Sociedade Rural e ferrenho adversário dos movimentos sem-terra , ele era um guardião implacável do nosso maior santuário ecológico, a Mata dos Godoy. Olavo era a prova viva de que a proteção da natureza e produtividade econômica podem caminhar lado a lado.
Quando menino, Olavo costumava andar com os bolsos cheios de sementes, que ia espalhando ao longo do caminho. Jamais se casou: a quem lhe perguntava os motivos, dizia que a sua esposa era a própria floresta. Floresta que ele defendia com unhas, dentes e uma carabina contra os caçadores, invasores e até o próprio Incra, que nos anos 80 sobretaxou a Mata dos Godoy por considerá-la "área improdutiva". Coisas que só existem no Brasil, tais como a jabuticaba.
Em 1989, no dia em que a Mata dos Godoy foi transformada em Parque Estadual, Olavo fez um discurso emocionado na Assembleia Legislativa do Paraná, utilizando palavras que definem sua grandeza: "Espero legar aos nossos pósteros professores, cientistas e historiadores um laboratório natural e fiel de uma floresta que nasceu com o mundo. (...) Aos pés dessas árvores companheiras da minha solidão ficará sepultada minha mocidade e meu coração, e por certo minhalma virá vagar por elas."
O nome Olavo tem origem nórdica e significa "O Sobrevivente". Dediquemos nosso pensamento a esse lutador que hoje sobrevive na terra que amou, nas sementes que plantou e nas árvores que protegeu. Ah, como eu queria voltar no tempo, caminhar até ele e dizer:
Obrigado, Olavo Godoy!
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