Viagem ao centro de Londrina
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quinta-feira, 28 de junho de 2018
por Paulo Briguet 

É uma linda tarde de sol no centro de Londrina. Tomo um café na lanchonete que frequento há quase 30 anos. Ao sair, encontro meu amigo Bonfim. Com emoção, trocamos um longo abraço, abraço de dois amigos de colégio que não se veem há muito tempo; pergunto como é que ele vai, o que anda fazendo, quais são as novas. Seria tudo muito natural se Bonfim não tivesse morrido em fevereiro de 1993.
Como estou de folga hoje, resolvo dar uma volta pelas redondezas. Na esquina do Bosque, conversam os poetas Thomaz DAmico e Seicho. Seu Thomaz recita um dos inúmeros poemas de Camões que decorou (ou seja, guardou no coração); Seicho, muito mais baixo que o colega de ofício, escuta-o com um sorriso silencioso de monge budista, enquanto as galinhas do Bosque ciscam a seus pés. Quando chegar em casa, ele decerto escreverá um de seus pequenos contos kafkianos.
Do outro lado da rua, em frente à banca do correio, Carlos Silva lê as manchetes do jornal do dia. Ao me ver, ele me observa do fundo dos óculos e diz:
Briguet, alguém já notou a sua semelhança com Mr. Bean?
Passo pela frente da biblioteca e vejo Estélio Feldman jogando xadrez numa das mesas da calçada. Ele me acena antes de tomar o bispo do adversário. Entre a casa de sucos e o quiosque de revistas usadas, ao lado da catedral, está o Gordo Edson. Da última vez que nos encontramos, ele estava magro, mas agora voltou a fazer jus ao nome. Fica feliz porque agora temos opiniões políticas muito próximas.
Na esquina da praça, o lambe-lambe esconde a cabeça sob o pano preto para fazer mais um retrato. Os modelos não poderiam ser mais bonitos: Jack e Vivian, ela grávida de cinco meses. Cumprimentam-me e perguntam quando vou aparecer no Beco para tomar uma cerveja.
Perto do Relojão, noto o percurso de João Milanez: envergando seu terno de linho, sobe a Rio de Janeiro, vira na Paraná, passa pelas Casas Huddersfield e se dirige ao Hotel Sahão. Mais abaixo, no saguão do Ouro Verde, Francelino França discute animadamente com seus colegas de teatro; vão levar uma nova peça de Nelson Rodrigues. Paulo Menten se aproxima: será que ele vai desenhar os cenários?
Diante da estátua do Mercúrio, que eternamente aponta para o alto, duas crianças passeiam de mãos dadas, e param diante de um vendedor de balas. São Amanda e Lucas. Inexplicavelmente, eles me reconhecem e dizem meu nome. Aceito uma bala que Lucas oferece, vou andando em direção ao coreto, não sem antes dar uma passada pela Livraria Ghignone e comprar um livro de Jamil Snege.
Na porta da Galeria Vila Rica, Paulo Francis troca ideias com José Eduardo de Andrade Vieira. Ao me ver, Francis diz com aquele inconfundível sotaque da televisão:
Como é que o Brasil anda se comportando na minha ausência?
Mal, respondo. José Eduardo apenas balança a cabeça e o chapéu. Peço desculpas, mas estou atrasado para a sessão do filme de Woody Allen. Está passando "Crimes e Pecados". Antes de entrar no escuro da sala já estão passando os trailers , vou comprar pipoca e uma lata de Coca-Cola. Seria tudo muito natural, se o pipoqueiro não fosse o Seu Briguet.
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