Vende-se esta casa
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 21 de novembro de 2016
por Paulo Briguet 

Sonhei que o Lula tinha sido preso, mas não é sobre isso que eu quero falar hoje. Vou falar sobre a casa: a velha casa de madeira que está à venda nas cercanias do Centro Cívico, do Clube Alemão e do Lago Igapó. De modo inexplicável, eu me senti personagem daquele cenário, como se algum dia tivesse habitado aquela fragilíssima construção que ainda resiste em pé em meio aos edifícios de concreto, seus irmãos mais novos e mais fortes.
Descobri a casa quando caminhava rumo ao Fórum, para falar com a promotora pública. Notei a plaquinha onde se lê, pintada à mão, a frase "VENDE ESTA CASA". (A partícula "se" foi omitida, transformando a frase em um imperativo.)
Não sei quem viveu nesta casa, não sei quem a construiu, não sei quem a está vendendo. Não faço ideia de quem possa ter espiado o dia e a noite pelas janelas atualmente vedadas. Não sei quem passou pela porta hoje quase destruída. Não sei quem pisou naquele piso vermelhão hoje desbotado pela chuva e pelo sol. Não soube de ninguém, adulto ou criança, que tenha colocado os pés na grama do quintal. Não enviei nem recebi nenhuma das cartas que passaram pela caixa de correio. Não conheci ninguém que tenha desfrutado da generosa sombra das árvores que ali existem. E também desconheço as árvores cuja madeira foi usada para construir a casa, há muitos e muitos anos. De tudo que aparece na imagem, eu só conheço o céu. É o céu de Londrina, como não há em nenhum outro lugar do mundo.
Então eu me lembrei da frase de um velho economista, que li em um livro encontrado na Biblioteca da UEL: "Existem coisas que não entram no PIB". Desta velha casa, a contribuição para o Produto Interno Bruto será pequena: apenas algumas ripas, telhas, vidraças e tijolos com destino incerto, material de desconstrução. (O terreno deve valer bem mais.)
Mas dentro dela, e em torno dela, e no passado incomunicável que ainda resiste entre aquelas finas paredes, sob aquele teto que está com os dias contados, existe uma infinidade de coisas e vozes e dores e alegrias e pensamentos que nunca poderão ser vendidos. Existe a história das primeiras pessoas que moraram ali, e de seus antepassados. Em algum livro ainda não escrito, acham-se registrados os dias mais tristes e mais felizes na vida de cada um que habitou aquele lugar. Aquela casa hoje solitária no meio dos prédios comemorou Natais, festejou Anos-Novos, guardou domingos e encarou segundas-feiras enquanto nós a ignorávamos completamente, mergulhados em nossas pequenas tragicomédias cotidianas. Inexplicavelmente, ela me fez pensar no casebre em que Dr. Jivago se refugiou durante a guerra civil na Rússia.
Vende-se a casa, mas não se pode vender o tempo, nem a fé, nem a história, nem a angústia, nem a paz, nem a risada, nem o esquecimento, nem a brisa da manhã, nem a claridade da tarde, nem o sereno da noite. Vende-se a casa, mas não se vende a vida. Que é a prisão do Lula diante dessa verdade?
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