Velha querida escola
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 21 de março de 2018
por Paulo Briguet 

A escola em que aprendi a ler e escrever fechou as portas em São Paulo, depois de 120 anos de funcionamento. O Externato Casa Pia São Vicente de Paulo, situado no bairro de Santa Cecília, encerrou atividades no ano de 2015. Na última semana, a imprensa paulistana noticiou que um grupo educacional estrangeiro adquiriu as instalações da velha escola. Felizmente, os novos proprietários comprometeram-se a manter as características originais do edifício mais antigo e da capela do colégio, patrimônios de imenso valor histórico e sentimental para muitas gerações de paulistanos. Infelizmente, parte da escola será substituída por instalações mais modernas. Adeus, pátio. Adeus, quadra de esportes. Adeus, anfiteatro. Adeus, salas da pré-escola. Tudo isso desapareceu nos últimos dias. Até a imagem da Mãezinha teve de ser retirada para outro lugar.
Eu me lembro das manhãs paulistanas em que fazíamos ordem unida para rezar a Ave-Maria e cantar o Hino Nacional, sob o olhar atento e carinhoso da Madre Lourdes, diretora da escola, e sua fiel assistente, Irmã Ângela. Vejo rostos de crianças naquela manhã que não se acaba: Carlos, Adalberto, Maximiliano, Paulo Eduardo, Simone, Laurester, Ana Paula, Fauaz... Todos vocês jamais saíram da minha memória, meus eternos colegas. Por onde andam agora? Estarão sentindo a mesma saudade que eu sinto da nossa querida Casa Pia? Sabem ainda cantar "Mãezinha do Céu/ Eu não sei rezar / Eu só sei dizer / Quero te amar..."?
Estudei na Casa Pia do pré-primário à 5ª série ginasial, entre os anos de 1976 e 1981. Minhas primeiras professoras foram três Marias: Maria Lúcia, Maria Amélia e Maria da Glória. Essas mulheres exerceram um papel decisivo em minha vida. Maria Lúcia me alfabetizou com a Cartilha Sodré; Maria Amélia, a doce e linda professora do meu 1º ano primário, apresentou-me as crônicas e os poemas de Cecília Meireles, a primeira grande escritora que conheci; e foi durante uma aula de Maria da Glória em que ouvi uma das perguntas decisivas da minha existência: "Você quer fazer a primeira comunhão?" Maria da Glória implicava com o meu jeito de escrever o número 8; na verdade, o número era o infinito.
Algumas vezes eu sonho que estou na Casa Pia, em ordem unida. Depois de rezarmos a Ave-Maria e cantarmos o Hino Nacional, Madre Lourdes anuncia que será feito um sorteio para saber quem vai levar a imagem da Mãezinha para casa. Em voz solene, ela anuncia pelo microfone, diante de toda a escola:
O aluno sorteado é... Paulo Briguet!
Estou triste por saber que a minha querida velha escola não existirá mais como eu conheci. Consolo-me escrevendo estas breves recordações e sabendo que, quando for a São Paulo, talvez me deixem visitar o velho prédio onde estudei na infância, depois de rezar uma Ave-Maria na capela onde conheci a Eucaristia.
Para mim, cada dia é Casa Pia.
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