Imagem ilustrativa da imagem Valtão e Marcelo



Quando iniciei encontro diário com meus sete leitores na Avenida Paraná, em janeiro deste ano, meu propósito era seguir a lição do professor Olavo de Carvalho e escrever sempre com o coração nas mãos, isto é, utilizando a linguagem da sinceridade absoluta. Uma vez que o cronista segue tal caminho, a voz do coração torna-se uma segunda natureza, indiscernível do próprio ser. Por isso, eu não poderia falar no resultado das eleições de Londrina sem dizer algumas palavras sobre o meu amigo Valter Orsi.

Nada entendo de campanhas, mas devo dizer que o Valtão teve um desempenho espetacular na eleição para prefeito. Conquistar 93 mil votos sem jamais ter sido candidato antes e com apenas 45 dias de campanha é um feito quase impossível. Conheço o Valtão há 17 anos, quando participamos juntos do movimento Pé Vermelho Mãos Limpas, que levou à cassação de Antonio Belinati durante o escândalo AMA-Comurb, a maior tragédia de nossa história. Trabalhei com ele na Acil e aprendi muito com essa convivência diária. Logicamente, não pude declarar o meu voto nesta coluna, por razões de ordem ética, mas todo mundo que me conhece sabe que eu era Valtão desde criancinha.

Como vocês sabem, não foi o Valtão que ganhou a eleição para prefeito. Foi o Marcelo Belinati. Vocês jamais ouvirão uma palavra minha contra a pessoa do Marcelo. Conheço-o desde os tempos da República da Humaitá, quando éramos contemporâneos na universidade, ele estudando Medicina e eu, Jornalismo. Naquela época eu era trotskista, mas isso jamais afetou a cordialidade de nossas relações, mantida até hoje. Quando participei da votação do impeachment como correspondente da FOLHA, em abril, ele foi de uma gentileza ímpar, assim como os dois outros deputados londrinenses, Luiz Carlos Hauly e Alex Canziani. Minhas restrições à candidatura do Marcelo Belinati, ora vitoriosa, se devem ao grupo político que ele representa (porque ninguém governa sozinho) e à heterogênea coligação partidária que o apoiou (a meu ver, uma prática da velha política que todos nós sete rejeitamos). Politicamente, nunca estaremos juntos. Pertencemos a tribos diferentes. Sei que a opinião de um reles cronista não pesa nada para quem teve 130 mil votos, mas meu compromisso é ser sincero. Estou apenas fazendo o meu trabalho – e continuarei assim.

Se o recado das urnas foi claro em todo o país, em Londrina foi o que Nelson Rodrigues chamaria de "óbvio ululante": o eleitor rejeitou o PT e suas linhas auxiliares. Nossa cidade não terá um só vereador de esquerda nos próximos quatro anos.

A esquerda, no entanto, tentará agora agir nos bastidores, reivindicando espaços no novo governo e atuando, de forma agressiva, nos sindicatos e nos conselhos municipais, aparelhando-os para voltar ao poder. Se você tem filhos em idade escolar ou universitária, cuidado! Eles podem ser usados como inocentes úteis nesse processo de reconquista da boquinha perdida.

Londrina é uma cidade conservadora. Resta saber se o novo prefeito entenderá isso ou se renderá às bocas abertas da direita populista e da esquerda lulista.

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