Uma testemunha da história
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 08 de agosto de 2018
por Paulo Briguet 

O jurista Miguel Reale (1910-2006) é um gigante do nosso país. No livro "O Futuro do Pensamento Brasileiro", Olavo de Carvalho não hesita em colocá-lo entre os quatro maiores nomes da alta cultura nacional, ao lado de Gilberto Freyre, Otto Maria Carpeaux e Mário Ferreira dos Santos. Recentemente, por conta do período eleitoral, voltou-se a discutir, com veemência e alguma histeria, o regime militar brasileiro (1964-1985); houve até uma estranha retratação póstuma em rede nacional. O Professor Miguel Reale viveu intensamente os acontecimentos de 1964 e dos anos posteriores sem jamais deixar de apontar os erros e excessos do regime. Em seu belo livro de memórias "A Balança e a Espada", publicado há 30 anos, o jurista dá sua versão sobre aquele período. Vale a pena sublinhar algumas passagens:
"Depois que os militares deram por findo o processo revolucionário iniciado em 1964, tem sido moda repudiá-lo indiscriminadamente, havendo quem se refira a ele com sorrisos de mofa, caçoando da Redentora, e procure ridicularizar as mulheres mineiras e paulistas que saíram à rua em defesa das liberdades democráticas e dos valores da civilização ocidental, também objeto de opróbrio por parte de esquerdistas de todos os naipes, com base em frases feitas fornecidas por cultores da Filosofia, ontem, como hoje, em grande parte encastelados na USP e em universidades católicas."
"Vai adquirindo foros de verdade inconcussa a versão de um governo providencial [de João Goulart] que estaria na iminência de estabelecer um regime de igualdade e de justiça social no Brasil, redimindo as classes exploradas pelos magnatas das finanças, quando teria sido violentamente rechaçado pelas forças da reação. Nem falta quem fale mesmo na interferência da CIA, ou do imperialismo internacional, inconformado com as decisões tomadas com o pagamento da dívida externa... Nem faltou a tentativa cinematográfica de transformar-se João Goulart em mártir da redenção nacional..."
"A verdade, porém, é bem outra, como o sabem aqueles que viveram os angustiosos meses da administração João Goulart, que, revestido de prerrogativas presidencialistas, deixou a Nação entregue à desordem, e desordem no mais das vezes fomentada e incentivada por Ministros de Estado ou Governadores (...) A Nação deteriorava-se, esse o diagnóstico positivo, que hoje se pretende ocultar às novas gerações, numa tentativa tresloucada de recomeçar-se o drama."
"O que atemorizava a maioria silenciosa da Nação eram antes a indefinição, a incerteza, a insegurança, que podiam conduzir-nos a qualquer direção, desde o comunismo declarado até à pura e simples luta de classes por si mesma, como instrumento demolidor das estruturas sociais."
"Enquanto os esquerdistas e revolucionários deblateram e criticam com veemência, os chamados conservadores vão realizando, com prudência e firmeza, as reformas sociais necessárias."
Sobre o livro de Miguel Reale, uma nota curiosa: o exemplar por mim adquirido em um sebo londrinense com vários trechos sublinhados a lápis pertenceu a José Hosken de Novaes, um dos melhores prefeitos da nossa história.
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