Imagem ilustrativa da imagem Um dia para quem vai nascer



Criança,

Dirijo-me a você que espera pelo dia da luz, no santuário do ventre de sua mãe. Você que ouve a música de dois corações, o seu e o dela. Você que cresce um pouco a cada instante, neste fenômeno que os médicos chamam de gestação e eu chamo de milagre. Você ainda não pode falar. Mas eu posso falar por você, meu pequeno irmão, minha pequena irmã, meu pequeno amigo nascituro, criança de hoje e de todos os dias.

O Sol nasce, a grama nasce, a flor nasce, nascem os amores e os ódios, nascem a esperança e o absurdo, as crises nascem, nascem as ilusões, nascem alegrias dores glórias, até as palavras e os silêncios nascem. Por que você não nasceria? Escrevo agora para você, espero pelo seu primeiro choro, choro de ar e de alegria, de assombro e maravilha. Choro de respirar, amar, viver.

No calendário há dias para todas as profissões, para todas as categorias, para todas as causas, para todos os gostos, para todas as idades, para todos os slogans, para todas as minorias, para todas as maiorias, para todas as intenções, para todas as lutas, para todos os grupos. Há 365 dias no ano e um santo para cada um deles. Por que você não mereceria também o seu dia? Se todo dia nasce, por que não dar um dia ao nascituro?

De uma coisa eu tenho certeza: todos os meus sete leitores já foram nascituros. Todos os leitores deste blog já foram nascituros. Todas as pessoas que vi e verei hoje, desde o momento em que acordei para rezar o terço até cair no sono dos justos à noite, foram nascituras. Mulheres? Nascituras. Homens? Nascituros. Velhos? Nascituros. Jovens? Nascituros. Crianças? Nascituros.

Todas as pessoas que nasceram foram nascituras. Todas as pessoas que morreram foram nascituras. Todos os personagens que permitem a existência desta coluna e destas palavras foram nascituros um dia.

E digo mais. A socióloga que combate a "naturalização das relações de poder" e o militante que quer federalizar a gravidez das mulheres londrinenses e até a doutora para quem as crianças não pertencem às famílias — cada um deles e delas (ou delxs, se preferirem) também estiveram na pele de um nascituro um dia. Aliás, bem mais que um dia: em média, 38 semanas.

No entanto, não há excluído mais excluído do que você, meu pequeno nascituro. Você não tem associações, nem conselhos, nem entidades, nem lobbies, nem partidos, nem coletivos. Você não tem voz nem voto. Por quê?

A condição sine qua non para viver é ter sido nascituro. Querer negar uma simples data para essa situação universal é uma verdadeira afronta à estrutura da realidade. Rejeitar um dia para o nascituro é uma atitude que só posso definir com uma palavra horrível: solipsista. O que pode ser mais importante que a vida — e a vida de uma criança?

Viva, nascituro!

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