Imagem ilustrativa da imagem Um céu para Dr. João
| Foto: Paulo Briguet



De manhã, caminhando pela avenida que leva o nome da minha santa, olho para o alto e vejo a árvore quase sem folhas, tendo ao fundo o céu azul de Londrina. No exato momento em que contemplo a imagem, tenho a certeza de que escreverei sobre isso ao chegar em casa. Assim é a vida de um cronista: constituída de pequenos quadros que às vezes, sem motivo aparente, escapam do encadeamento geral das coisas para ganhar uma breve biografia em forma de frases. Aquele céu e aquela árvore são irrepetíveis, quase tão irrepetíveis quanto a vida de um homem.

Vocês, meus sete leitores, devem estar lembrados de uma crônica, publicada recentemente, cujo declarado objetivo era provocar o sorriso de um homem chamado João Eduardo Miguel. Pois ele partiu há uma semana, cercado pelo amor de familiares e amigos, após ter cumprido sua jornada de amor e trabalho neste mundo.

Viktor Frankl, sobrevivente dos campos de concentração, dizia que o sentido da vida nunca está em nós mesmos, mas naquilo que se realiza além de nosso eu. Existem algumas coisas no mundo que só uma pessoa pode fazer — e essa pessoa é você. O importante é realizar tarefas que não sejam revogadas pela perspectiva da morte. Como diria Ortega y Gasset, as únicas coisas realmente fundamentais na vida são as que passam pelo crivo da morte: aquilo a que você se agarraria mesmo na hora fatal, como um náufrago agarra um pedaço de madeira no mar.

Dr. João, trabalhando desde menino para ajudar os pais e irmãos de origem pobre, cedo descobriu o seu talento para trabalhar com a justiça e o cumprimento da lei; para apoiar e ajudar aqueles que precisavam de um incentivo, de uma força, de uma palavra amiga; para cultivar os valores espirituais que atribuem significado a todos os detalhes da vida; para lançar-se a uma das missões mais belas e corajosas que um homem pode ter pela frente — a de criar e amar uma família. Tudo isso sobreviverá nele e com ele.

Dias antes de falecer, Dr. João me telefonou. Havia acabado de sair de uma internação hospitalar. Com muita gentileza, agradeceu pela crônica que havia sido publicada pouco antes, e que o filho Eduardo lera para ele no leito do hospital. Combinamos de nos encontrar e tomar um café assim que ele estivesse recuperado. Infelizmente não foi possível.

E assim partiu o Dr. João Eduardo Miguel, um homem que nunca vi pessoalmente, mas que já habita aquele lugar reservado em meu coração para os amigos queridos. Ali onde estão meu pai, Vô Briguet, Antônio Costa, Dom Albano, Padre Kentenich e tantos outros.

Então finalmente compreendi: aquele céu e aquela árvore, na rua da minha santa, representam o sorriso de Dr. João que eu não pude ver com estes olhos mortais e debilitados pelo uso. A cena estava lá para me certificar de que nada escapará à memória de Deus; mesmo os detalhes aparentemente mais frágeis da vida serão resgatados do esquecimento.

Um dia verei o sorriso — face a face, na luz da eterna manhã.
Fale com o colunista: [email protected]

mockup