Imagem ilustrativa da imagem Sonho de um dia normal
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Sabem qual é o meu sonho? Ter um dia normal. Um dia simples, um dia rotineiro, um dia sem sobressaltos. Um dia com começo, meio e fim. Um dia feito de manhã, tarde e noite. Oito horas de trabalho, oito horas de família, oito horas de descanso. Um dia honesto, um dia comum, um dia preto na folhinha. Nem muito alegre, nem muito triste. Um dia pão com manteiga, um dia arroz com feijão, um dia como todo santo dia. Um dia do dia a dia. Esse é o meu sonho.

Trivial? Pode ser. Mas também cada vez mais raro. Assim, a cada dia que passa, esquecemos como é que se passa um dia assim. Nos últimos anos, a normalidade se tornou uma exceção. Mais do que uma exceção: um tesouro. Mais do que um tesouro: um milagre. E é por esse excepcional e precioso milagre que eu rezo todos os dias.

Eu queria um dia em que nenhum político fosse preso, em que nenhum trabalhador fosse morto, em que nenhuma criança padecesse. Dia sem latrocínio, sem família morta na estrada, sem dor além da dor de viver.

Eu queria um dia sem escândalos, sem letras maiúsculas, sem ruídos infernais. O dólar não subiria muito, a bolsa não cairia demais, as celebridades cairiam em si. Ah, como eu queria um dia sem amizade rompida, sem ilusão perdida, sem piada esquecida.

Eu queria um dia em que o STF não soltasse ninguém; em que o preso famoso só recebesse visitas da família; em que a gente, de repente, esquecesse que existe um governo, um prefeito, um presidente. Eu queria um dia sem fortes emoções, como uma brisa do fim de tarde, como a sombra de uma figueira, como a voz do Rio Tietê nas pescarias com meu pai. Dia sem alarme, sem bomba, sem furo, sem urgência. Será demais, será demência?

De manhã, eu acordaria, rezaria o terço, sairia a passear com o Cisco. De volta para casa, enquanto a Rosângela e o Pedro acordam, fazer café e dar uma passada de olho pelas manchetes do jornal. Nada anormal. Enquanto Cisco rosna e faz o teatrinho dele para comer ração, o Pedro vai fazer tarefa de português e matemática, depois lê um gibi da Mônica. Rosângela sai para o trabalho, eu fico escrevendo minha coluna e meu livro. É um dia de sol e céu londrinense, nem muito quente, nem muito frio. Seu Manoel, o porteiro, me entrega as correspondências, contas a pagar, nenhuma atrasada. Abro a porta de casa, vejo Pedro com sua esposa e a Rosângela brincando com os nossos netinhos. No computador está passando um filme de animação inspirado em um conto de Philip K. Dick. Juntos assistimos ao por do sol, damos risada, e eu me lembro de uma velha anedota contada pelo Seu Briguet. Agora eu me tornei o Seu Briguet. Saudade, vô.

E chegamos à noite desse dia normal, um dia sem crise, sem guerra, sem pânico, sem desespero, sem histeria ou psicopatia, sem toque de recolher nem textão na rede social. Dia sem incêndio, sem facada, sem xingar a mãe. As estrelas vão aparecendo. Pedro e sua esposa ensinam os nomes das constelações às crianças. Cisco já virou uma estrelinha há muito tempo. Agora vamos dormir, que amanhã tem mais.

Um dia o dia chegará.


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