Sócrates no campus
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 31 de maio de 2017
por Paulo Briguet 

Professor José, excelente amigo, encontrá-lo é uma imensa honra! Mas diga, por favor, que motivos o trazem a esta Ouvidoria do campus universitário? O sr. pretende fazer alguma reclamação?
Sim, Sócrates. Vim prestar queixa contra um colega de departamento.
Pelo Deus, Professor José! Tal notícia deixa-me estarrecido. Suponho que esse colega tenha cometido um gravíssimo delito.
Ele ofendeu outros colegas do departamento.
Ó, luminar da ciência... Causa-me espanto que isso aconteça no ambiente universitário. Imagino que tenha sido uma ofensa realmente devastadora.
De fato, Sócrates. Ele criticou uma carta de repúdio que nós elaboramos.
O sr. quer dizer, nobre docente, que ele repudiou o repúdio?
Exatamente.
Mas a Universidade não é o espaço do debate, do contraditório, das diferenças?
Sim, sem dúvida.
O repúdio ao repúdio não seria, por assim dizer, um direito dos mestres acadêmicos?
Desde que esse repúdio não seja, em si, um ato de intolerância.
Ora, Professor José, peço que perdoe minha falta de acuidade, mas acho que ainda não compreendi a sutileza do seu argumento. Denunciando o repúdio ao repúdio, o sr. e seus colegas não estariam sendo precisamente intolerantes?
De modo algum, porque a atitude desse professor acaba favorecendo os conservadores e reacionários, inimigos da nossa Universidade, os verdadeiros intolerantes...
Mas, ilustre docente, amigo mui experto, a Universidade, como o próprio nome diz, não tem por objetivo estimular o contraste e o conflito de todas as ideias, inclusive aquelas que emanam dos círculos reacionários e conservadores?
Nada disso, Sócrates! Conservadores e reacionários bem como todos aqueles que ousarem defendê-los devem ser retirados do nosso convívio. Não permitiremos discurso de ódio no campus. Não passarão.
Professor José, corrija-me se eu estiver errado, mas o professor denunciado fez algum tipo de ameaça aos colegas? Incitou à violência? Acusou-os falsamente de algum crime? Usou chantagem, intimidação, dedo no olho? Tentou forçá-los a alguma coisa?
Não, ele não fez nada disso.
Então, ó digno docente, onde está o ódio no discurso do professor?
Ele desqualificou a fala dos próprios colegas de departamento.
Mas, excelente Professor José, o debate acadêmico não exige que se faça o confronto das hipóteses, sendo que é inevitável a consequência de que umas, as melhores, venham a desqualificar outras, as piores? Não seria exatamente isso que chamávamos em Atenas de Dialética?
Ora, Sócrates, não venha você também me desqualificar! Você não tem nem mestrado. Será que não aprendeu nada? Continua defendendo o indefensável e corrompendo os jovens! Mas chega de conversa fiada; o Ouvidor está me chamando. Adeus, velho reaça.
Adeus, Professor José. Tenha uma boa audiência. Você caminha para a Ouvidoria, eu para a eternidade. Só o Deus saberá quem tem mais sorte.
(Crônica baseada em fatos reais e recentes da nossa Universidade.)


