Ser de Londrina
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 09 de março de 2018
Paulo Briguet 

"Como és bela, minha amada, como és bela!..." (Cântico dos Cânticos 4,1)
Ah, se eu fosse poeta... Poderia dizer em versos tudo que vai no meu coração. Mas Deus me fez apenas cronista: tudo que posso é cantar este amor em prosa.
Ser de Londrina não é nascer em Londrina, é escolher Londrina. É substituir a certidão de nascimento pela certidão de casamento. Ser de Londrina não é ser filho de Londrina, é ter um filho de Londrina. Ser de Londrina é muito mais do que um pedaço de papel ou um quadro na parede. Ser de Londrina é ter fome, é ter sono, é ter sede. Ser de Londrina é ser.
Ser de Londrina é o verão: calorento e caloroso. Ser de Londrina é outono: folhas caídas no caminho. Ser de Londrina é inverno: renascer depois da geada. Ser de Londrina é primavera: pelas flores a conhecereis. Ser de Londrina é estação: a rodoviária virou arte, a ferroviária virou história, o fórum virou biblioteca, o colégio virou coração. Ser de Londrina é saber.
Ser de Londrina é andar. zona norte, zona sul, zona leste, zona oeste e o centro, rosa-dos-ventos do meu coração. Ser de Londrina é número: Zerão, Cincão, Três Bocas, 369, 145, Dez de Dezembro. Ser de Londrina é subir com os prédios, é descer com os vales, é rodar com as rotatórias. Ser de Londrina é sonhar com lugares, é beber com os bares, é amar com os lares. Ser de Londrina é estar.
Ser de Londrina às vezes quase dá ressaca: é muito longa esta festa. É morar numa pracinha, numa vilinha, numa ruela de um só quarteirão. Ser de Londrina é morar na colina: terra santa de Londrina. Ser de Londrina é morar na avenida com nome de santa. Ser de Londrina é café, almoço e janta. Ser de Londrina é rimar.
Ser de Londrina é pedir uma graça a Nossa Senhora. É trabalhar na oficina com São José. É pregar aos pássaros com Santo Antônio. É ir para o campo com Padre Kentenich, Edith Stein e Viktor Frankl. É morrer pelo amigo como São Maximiliano Kolbe. É cantar com Homero. É chorar com Sófocles. É rir com Molière. É viajar com Quixote e Sancho. É voltar como Ulisses e Dante. É conhecer a verdade completa no alto da cruz. Ser de Londrina é ser de Jesus.
E quem é que disse que Londrina não tem mar? Tem sim! Na falta de um Mar Vermelho, Mar Branco, Mar Morto ou Mediterrâneo, temos o nosso Mar Menor: chama-se Igapó. Na língua dos índios, Encontro das Águas. Nosso mar é o encontro das lágrimas, do sangue, do suor. Nosso mar é maior. Ser de Londrina é sofrer.
O ser de Londrina é o filho pródigo, o cego, o coxo, o leproso, o surdo, o mudo, o ladrão, o publicano, o servo do centurião. E de todos os males ser curado. Ser de Londrina é ser perdoado. Ninguém chega a Londrina, mas chega em Londrina: ser de Londrina é nascer.
Londrina, meu verso, meu universo.
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