Imagem ilustrativa da imagem Saudades do Vô Briguet
| Foto: Paulo Briguet

Um dos meus orgulhos na vida é ser amigo de um dos nossos maiores escritores, Domingos Pellegrini.



Domingo passado, eu tinha acabado de rezar o terço quando o Seu João da portaria interfonou:
“Paulo, tem um envelope aqui pra você.”


Dentro de um envelope, havia um livro e um bilhete. O livro era do poeta Jorge de Lima; o bilhete, do Domingos Pellegrini. Ele viu o livro, lembrou-se de mim e resolveu me presentear.

Acertou em cheio. Tenho uma especial predileção por “Anunciação e Encontro de Mira-Celi”, “Tempo e Eternidade” e “A Túnica Inconsútil”, obras que Jorge de Lima escreveu sob a inspiração da religiosidade cristã — e são justamente as obras reunidas no livro.


Relendo os poemas do grande autor alagoano — com o lápis na mão, um velho hábito —, sublinhei estes versos:


“O meu nascimento me acordou,
a minha morte me adormecerá.”


Por alguma razão, esses dois versos me fazem pensar no meu querido avô, Francisco Oreste Briguet, pintor de carros e juiz de futebol, que adormeceu do tempo para nascer na eternidade há 35 anos, no dia de Natal. Os versos de Jorge de Lima me levaram ao Vô Briguet, o Vô Briguet me levou à Revolução Constitucionalista de 32 (na qual Seu Briguet lutou), o conflito de 32 me levou ao conto “Guerra em Família”, em que Domingos Pellegrini fala de um Vô que lutou na mesma revolução, enquanto uma Vó heroica defendia os filhos no Norte do Paraná.


E daí eu fiquei com uma baita saudade do Vô Briguet — de suas histórias, de suas piadas, de nossas idas à mercearia da esquina. Vô Briguet, o corintiano roxo que fingia torcer para dar empate quando o Corinthians jogava com o Palmeiras, só para não entristecer o netinho palmeirense.


Reli e sublinhei uma passagem do conto de Pellegrini:


“Ele amarrou também um par de botas e uma espingarda que, disseram, não matava nem passarinho, nem que enfiasse a cabeça no cano; mas ele falou que fazia um bom barulho e barulho é importante numa revolução.”


Esse trecho me lembrou das histórias do Vô Briguet, quando ele dizia que a espingarda dele era tão fraca que os tiros não chegavam do outro lado do rio...


Em meio a essas lembranças, baixei no celular um aplicativo que “envelhece” as fotos e mostra como a pessoa vai ser com mais de 80 anos.


Fiz o teste comigo e o resultado foi inacreditável: descobri que eu sou o Seu Briguet. Olhem para a imagem da coluna. Viram? É Francisco Oreste Briguet, sem tirar nem pôr.


Lembrei-me então da passagem do conto em que o personagem volta para casa, depois da Revolução, e não o reconhecem porque ele está de cabelos brancos.



Obrigado, Domingos, por me trazer lembranças tão boas à memória. E não pense que eu me esqueci: em breve, você vai completar 70 anos. Merece todas as homenagens da cidade que retratou tão bem.