Saudades da Vó Maria
PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de novembro de 2016
por Paulo Briguet 

Outro dia vi um jovem zombando do outro:
Seu "criado pela vó"!
Não entendo essa denominação como pejorativa, e por um motivo bastante simples: eu fui criado por minha avó. Não que meus pais tenham sido ausentes, ao contrário. É que, durante minha infância em São Paulo, nos anos 70, Paulo e Aracy trabalhavam o dia inteiro: ele na Agência Centro do Banco do Brasil, ela dando aulas de história em escolas de periferia. Pequeno, eu ficava em casa com a Vó Maria. Hoje estou sentindo muito a falta dela.
Já contei a vocês sete que em minha mesa de trabalho tem uma imagem de Nossa Senhora Aparecida que pertenceu à Vó Maria. Ela era devota da Padroeira do Brasil, sua xará, e peregrinou até o Santuário de Aparecida, onde provavelmente deve ter adquirido a pequena imagem que observo agora, enquanto escrevo estas linhas.
Que saudade, Vó Maria! Você partiu há 11 anos, em junho, fazendo-me cantar com tristeza aquela música de Noel Rosa que você tanto amava: "Nosso amor que eu não esqueço/ E que teve seu começo/ Numa festa de São João..." Dizem que Noel compôs essa canção no leito de morte, vitimado pela tuberculose, com apenas 26 anos. Você chegou aos 86, Vó, mas poderia ter ficado mais um tempo com a gente... Sempre acharemos que as pessoas amadas partiram cedo.
Saudade, Vó. Saudade de quando eu entrava no quarto, de manhãzinha, e você estava no escuro rezando, rezando, rezando. Eu sei que boa parte daquelas orações eram para mim, para que eu tomasse jeito na vida. Rezou tanto que acabei encontrando a Rosângela, com quem me casei numa igreja que não poderia ter outro nome: Coração de Maria.
Certa vez, eu estava na casa da Vó Maria, na Rua Brigadeiro Galvão, em São Paulo. A casa possuía um longo corredor; eu, moleque achei que corredor era para correr e corri: bati a testa na ponta de uma mesa, criando um enorme galo. Vó Maria ficou furiosa, mas não comigo com a mesa. Não teve dúvidas: pegou uma serra e serrou a ponta da mesa.
Nessa mesa serrada ela servia delícias, entre as quais o campeão era o nhoque. Sobre a superfície lisa, enrolava, estendia e picotava a deliciosa massa. Ah, os almoços de domingos de Vó Maria! Quem já foi neto, sabe.
Tudo que ela fazia era saboroso, ou era doce, ou era alegre, ou era bonito. No final da vida ela bordou lindas toalhas de mesa, que até hoje usamos nas festas de Natal. Assim ela ajudou a moldar as nossas vidas. Se tenho alguma coisa de bom, podem estar certos de que aí está a mão de Maria.
A filha do Pai Costa e da Mãe Mulata não teve uma vida fácil. Desde muito jovem, padeceu com inúmeros problemas de saúde. Mas foi vencendo um a um. No nascimento de minha mãe, quase morreu: Maria e a pequena Aracy foram salvas por um médico japonês de Araçatuba.
Ontem minha mãe faria 76 anos. E Vó Maria teria 88. Como eu queria que elas estivessem aqui para ler estas palavras. De certa maneira, estão: minha casa é o Coração de Maria.
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