Imagem ilustrativa da imagem São Paulo, olhai por nós
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Em 25 de janeiro de 1554, dia da conversão do apóstolo São Paulo, um padre natural das Ilhas Canárias, pouco antes de completar 20 anos de idade, celebrou uma missa na colina de cume em formato triangular, por onde passavam os rios Tamanduateí e Anhangabaú. A cerimônia foi acompanhada por alguns religiosos jesuítas e índios nativos da região, que haviam ajudado a erguer naquele local "uma construção rústica, com paredes de barro e telhado de palha, com 14 passos de comprimento por dez de largura", segundo a descrição do jovem sacerdote, hoje canonizado pela Igreja e conhecido como Apóstolo do Novo Mundo.
O nome daquele padre era José de Anchieta; a aldeia que se formou em torno do pequeno colégio passou a ser chamada São Paulo de Piratininga. Nascia São Paulo, hoje a maior cidade do Brasil. O Pátio do Colégio, local onde se construiu a pequena escola dos jesuítas, é considerado o marco fundador da metrópole. Hoje existe ali um museu mantido pela Companhia de Jesus e considerado um patrimônio histórico de São Paulo e do Brasil.
Na última terça-feira, o antigo prédio dos jesuítas amanheceu coberto por uma enorme pichação em letras garrafais: OLHAI POR NÓIS. Pelas câmeras de segurança, é possível verificar que os vândalos agiram em grupo e portavam uma espécie de compressor de ar para fazer a pichação. Não foram poupados nem os moradores de rua que dormiam ali, e acabaram sendo atingidos por jatos de tinta.
Lembro-me da manhã, nos anos 70, em que meu pai me levou para conhecer o Pátio do Colégio. Contou-me ele a história dos padres José de Anchieta e Manuel da Nóbrega, fundadores da cidade. Muitos anos depois, o professor José Monir Nasser me ensinaria que para conhecer uma cidade você deve sempre recorrer às suas origens mais profundas, ao seu mito fundador. São Paulo nasceu como uma escola e uma igreja: está em seu destino mostrar os caminhos espirituais do nosso país. Era isso que meu pai estava me dizendo naquela manhã.
Vandalizar o Pátio do Colégio, portanto, é atacar a alma do Brasil. Não sei se os pichadores estavam conscientes do que faziam; provavelmente não. No entanto, o ataque ao mais antigo símbolo dos paulistanos insere-se no clima de vingança e provocação que paira sobre o país nos últimos dias. Ataques semelhantes foram feitos a instalações da Polícia Federal e da Justiça. Em Maringá, vândalos picharam a sede da Associação Comercial. Em Curitiba, formou-se um acampamento em torno da cela um criminoso condenado pela Justiça. Não há como ver esses acontecimentos com bons olhos. Uma pequena parcela de militantes forma hoje, no Brasil, um verdadeiro partido da destruição.
Na estrada de Damasco, Saulo foi cegado por uma luz intensíssima e ouviu a voz de Jesus Cristo:
— Saulo, Saulo, por que me persegues?
Que a conversão de São Paulo nos sirva de exemplo e inspiração para enfrentar as dificuldades dos tempos que vivemos. São Paulo, olhai por nós. São José de Anchieta, olhai por nós.
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