São Brás!
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 20 de setembro de 2016
por Paulo Briguet 

No momento em que escrevo estas linhas, meu amigo P. A. entra na sala de cirurgia para ser submetido a uma operação na garganta. Se você estiver lendo o jornal de hoje, amigo, saiba que estou na torcida por sua rápida recuperação. Tantas vezes você fez comentários generosos e deu conselhos importantes sobre meu trabalho, tornando-se o mais fiel dos meus sete leitores! Um dia ainda vou contar aqui a história de amor de seus pais; só estou esperando para isso um momento especial.
Nossos nomes têm as mesmas iniciais; deve ser por isso que você me chama de "Paulo Antônio". Tal semelhança não ocorre por acaso, mas indica uma espécie de irmandade espiritual, uma forma parecida de contemplar o mundo e seus mistérios.
Ao saber que você seria operado na garganta, preocupei-me com sua voz. Na verdade, é uma preocupação um tanto egoísta, pois não quero ficar privado de sua conversação. De todo modo, podemos conversar por escrito e é exatamente o que estou fazendo agora.
Amigo P. A. meu xará de iniciais, meu novo velho companheiro de infância, meu revisor predileto saiba que desde que você me deu a notícia sobre a operação eu venho pensando em São Brás. Vó Maria dizia "São Brás!" se alguém se engasgava, tossia ou queixava-se de dor de garganta. Durante a infância, ela teve que rezar muito para esse santo que viveu na Capadócia, no século IV.
São Brás é o protetor das gargantas. A fama nasceu quando ele caminhava por uma estrada e foi abordado por uma mãe em prantos, cujo filho estava prestes a morrer engasgado com uma espinha de peixe. Brás foi até o menino, pôs-lhe a mão sobre a garganta e rezou, salvando-o. Logo Brás tornou-se conhecido como milagreiro por toda a Capadócia.
Durante a infância, sofri muito com dores de garganta. Até hoje sinto o cheiro dos lenços embebidos em álcool que minha mãe e Vó Maria enrolavam no meu pescoço para que eu pudesse dormir melhor à noite, no apartamento da Alameda Barão de Limeira. Continuo morrendo de medo da Benzetacil, injeção muito dolorida que precisava tomar durante minhas crises de amigdalite. Deve ser por isso que adoro sorvete na infância, tomar um picolé era coisa rara. Nas poucas vezes em que isso me era permitido, eu precisava tomar alguns copos de água em temperatura natural para evitar a maldita dor de garganta.
Brás e meu amigo P. A. têm algo em comum: sempre combateram aqueles que usam o poder para roubar e ferir as pessoas. O santo da Capadócia acabou sendo preso, torturado e morto por um rei que não aturava suas críticas. Mas hoje quem nós invocamos quando nossas gargantas estão em risco? São Brás, é claro! O rei foi esquecido. Eis uma lição importante, P. A.: a santidade é maior que todos os impérios e governos.
Melhore logo, amigo!
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