Rosa e anjo
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 24 de janeiro de 2017
por Paulo Briguet 

Minha mãe era devota de Nossa Senhora Aparecida. Quando partiu, há cinco anos, deixou-me a rosa. Alguns podem achar que é a rosa de Dante, de Camões, de Eliot, de Rilke ou de Shakespeare. Mas a minha rosa não pertence a nenhum desses grandes poetas. Minha rosa veio da Mãe, aquela que um santo homem definiu: "Deus Pai ajuntou todas as águas e denominou-as mar; reuniu todas as suas graças e chamou-as Maria".
Se tivesse outro nome, minha rosa teria o mesmo perfume, a mesma cor, até os mesmos espinhos. E eu a amaria da mesma forma. Quando cheguei a este jardim chamado Londrina, com 18 anos na idade e nenhum juízo na cabeça, minha rosa já estava lá, ao alcance dos meus olhos. Mas, tolo e cego, não me dei conta de que deveria cuidar dela. Jacó serviu a Labão sete anos, depois mais sete, antes de desposar Raquel. Eu me desservi 14 anos antes de conhecer a flor que mudaria meu tempo, meu espaço e minha alma.
Minha rosa não é apenas rosa. Ela também é anjo, pois carrega consigo a mensagem e a proteção. Todos os dias minha rosa realiza o milagre de transformar os seus espinhos em asas, que me conduzem para longe da solidão, do egoísmo e do desespero. Ela é, simultaneamente, uma rosa que voa e um anjo que floresce.
Em sua identidade, minha rosa leva também o nome de Aparecida. Minha mãe esteve lá, quando menina. Seu Lourenço e Dona Élia, meus queridos sogros, visitaram a terra abençoada neste final de semana. Um dia também irei. À margem do Rio Paraíba, agradecerei por tudo inclusive pelo pequeno anjo que nos nasceu há quase 7 anos. Mais um anjo em minha vida, ofertado pelo criador de todas as rosas.
Há 300 anos, em 1717, três pescadores encontraram a imagem de terracota de Nossa Senhora Aparecida nas águas do Rio Paraíba. Primeiro, veio o corpo sem a cabeça. Depois, milagrosamente, a cabeça da santa negra. E por fim houve uma pescaria tão abundante quanto a de Pedro após a ressurreição. Dorival Caimmy recriou essa linda história na sua canção "Milagre", transpondo-a do rio paulista para o mar baiano. "Maurino, Dadá e Zeca, ô/ Embarcaram de manhã/ Era quarta-feira santa/ Dia de pescar e de pescador (...) Era só jogar a rede e puxar a rede/ Era só jogar a rede e puxar a rede..."
Hoje, vivendo com a minha rosa e meu anjo, sinto-me tão abençoado quanto os três pescadores naquela manhã. De certa forma, a manhã em que os pescadores saíram a pescar se parece muito com a manhã em que vi minha rosa pela primeira vez. Eu só demorei um pouco mais de tempo 14 anos para perceber que estava ocorrendo um milagre. O milagre que o poeta cantou um dia antes de morrer: "Rosa, ó pura contradição, tão bom/ ser o sono de ninguém sob tantas pálpebras".
Rosa e anjo, obrigado por me despertar para a vida.
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