Imagem ilustrativa da imagem Revolução da compaixão
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Em 1º de dezembro de 1934, o poeta Fernando Pessoa lançou o livro de poemas "Mensagem", considerado a sua obra-prima. O livro obteve sucesso moderado, tendo ficado em segundo lugar em um concurso literário (poucos se lembram do vencedor, o Padre Vasco Reis — o qual, aliás, ficou tristemente estigmatizado). O prêmio foi concedido no dia 31 de dezembro daquele ano. Pessoa morreria onze meses depois, em 30 novembro de 1935, com apenas 47 anos.

Várias vezes já disse que não creio em coincidências; portanto, acho muito significativo que Pessoa tenha publicado "Mensagem" nove dias antes da fundação de Londrina. Claro que o poeta português nem sabia da existência de um povoado no sertão brasileiro, mas acredito que a obra tem muito a ensinar para nós, falantes da língua portuguesa e continuadores do sonho de Pessoa.

A começar pelo título. "Mensagem" é uma referência cifrada à frase latina "Mens agitat molem", que está no Canto VI da "Eneida", de Virgílio. A frase significa literalmente "O espírito move a matéria"; é pronunciada por Anquises, pai do herói Enéias, que o visita no Mundo dos Mortos. Nos tempos que vivemos, as palavras de Anquises são preciosas: temos muito a fazer no mundo material, mas nem um passo conseguiremos avançar se não houver uma profunda transformação cultural e espiritual no país e na cidade.

Muitos se lembram dos famosos versos do poema "Mar Português": "Valeu a pena? Tudo vale a pena/ Se a alma não é pequena". Mas dificilmente as pessoas avançam e meditam sobre a estrofe seguinte: "Quem quer passar além do Bojador/ Tem que passar além da dor". Em outras palavras, se quisermos dar um sentido à nossa existência, precisamos obrigatoriamente conhecer o sacrifício e o sofrimento. O Bojador, também conhecido como Cabo do Medo, é uma localidade do Saara Ocidental, no Norte da África, além da qual os primeiros navegadores portugueses não passavam, por medo de monstros e abismos. Quem passaria o Bojador e o Cabo das Tormentas? Vasco da Gama, xará do padre que ganhou aquele concurso literário em 1934.

Nos últimos 13 anos, nosso país foi destruído pelos corruptos e ladrões. Eles fizeram uma revolução pela corrupção; cabe a nós, enquanto povo, fazer a revolução pela compaixão. Ao contrário do que se imagina, compaixão não é sinônimo de dó. Trata-se da realização efetiva do amor ao próximo: colocar-se no lugar do outro, sentir o que o outro está sentindo. Nosso desafio, hoje, é passar além da dor e reconstruir a nação brasileira sobre novas bases. Essa é a revolução que eu defendo — a começar por Londrina, nossa amada cidade, que tem o mesmo número de letras de Portugal e Mensagem. "Deus ao mar o perigo e o abismo deu/ Mas nele é que espelhou o céu."

Eis a mensagem de 2017, ano do centenário de Fátima e do tricentenário de Aparecida.

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