(Re)viver
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 04 de outubro de 2016
por Paulo Briguet 

Pedro estava fazendo a tarefa da escola. Uma das questões trazia vários desenhos e nomes de objetos com a letra "l": bule, bola, lápis, lupa, telefone, livro, leão, jaula. Nesta última palavra, Pedro parou por um instante. Antes mesmo de sublinhar a letra "l", como pedia o enunciado do exercício, escreveu: "d", "o". E acentuou o "o". Em cima da jaula, estava agora a palavra DÓ. Ele sente dó dos animais que ficarão presos naquela pequena jaula da tarefa de português.
Procurei disfarçar minha emoção, não sei se consegui. Aos seis anos, meu filho acabava de demonstrar, de forma totalmente espontânea, um dos sentimentos humanos que eu mais valorizo: a compaixão.
Outro dia, estávamos na garagem quando Pedro viu um louva-a-Deus e gritou de medo. Eu e a Rosângela explicamos a ele que o louva-a-Deus é um bicho inofensivo, apesar de se parecer com um monstro do Pokemón cujo nome não recordo agora. Dissemos também que o louva-a-Deus tem esse nome porque parece estar rezando.
Foi Deus quem criou o louva-a-Deus, papai?
Foi sim, Pedro.
E quem criou Deus?
Deus não foi criado por ninguém. Ele sempre existiu. Ele é o incriado.
Então eu me lembrei de um poema que escrevi vários anos atrás, e que chamei de "Canção do Louva-a-Deus". Naquela época, eu ainda ensaiava minha volta para a Igreja, minha volta para casa. Inspirei-me, talvez sem saber, no "Cântico das Criaturas", de São Francisco de Assis, mais conhecido por "Irmão Sol, Irmã Lua". Talvez tenha sido a minha primeira oração em muitos anos; uma forma de agradecer a Deus por todas as coisas belas que habitam o mundo.
No domingo, fui à missa no Santuário de Madre Leônia. Levei comigo um exemplar do Novo Testamento que pertenceu a meu pai, supostamente agnóstico e ao mesmo tempo uma das almas mais cristãs que já conheci. Abro o Evangelho de São João, leio aquele prólogo que tanto amo:
"No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. No princípio Ele estava em Deus. Todas as coisas foram feitas por Ele e nada do que foi feito, foi feito sem Ele. NEle estava a vida, e a vida era a luz dos homens."
Foi quando caiu das páginas do livro uma folha de sulfite dobrada. Abri o papel e li uma mensagem escrita em caneta esferográfica:
"Prezado Paulo Lourenço,
Neste dia tão especial, reli o Diário de Moby Dick. Sua crônica Videoviver deixa claros os laços afetivos entre você e seu filho. Para (re)viver Mirandópolis, deixo-lhe este presente: Dersu Uzala, do mestre Akira Kurosawa.
Um abraço do seu leitor,
Carlos Okawati.
Londrina, 9 de novembro de 2007."
No dia do meu casamento, meu amigo Carlinhos resolveu presentear o pai do noivo com um filme do mestre Kurosawa.
Por tudo isso eu digo, meus queridos sete leitores: o louva-a-Deus é que está certo.
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