Retrato de João
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 24 de outubro de 2016
por Paulo Briguet 

João tem 90 anos de idade, 82 de trabalho e 60 de advocacia. Todos os dias vai ao escritório, onde a mesa está repleta de livros e papéis. A máquina de escrever, velha companheira, fica sempre de plantão ao lado. Na prateleira, há outro amigo: Dom Quixote de La Mancha, o Cavaleiro de Triste Figura, cuja estatueta de metal é testemunha do trabalho diário do Dr. João Tavares de Lima.
Estamos diante do decano da advocacia londrinense, de prosa boa e suspensórios elegantes, personagem ativo da nossa história, observador do tempo e das ações humanas. O filho João, meu querido amigo, que seguiu-lhe os passos no ofício das leis, garante que o pai também é um excelente cozinheiro.
Em algum lugar li que os únicos tecidos humanos que continuam os mesmos ao longo da vida são as células do cérebro e do globo ocular. Pode não ser uma afirmação cientificamente certa, mas os olhos de Dr. João têm o brilho do menino que chegou em Londrina aos 15 anos de idade, no dia 7 de setembro de 1941. Aquela decisão foi o grito da Independência para o adolescente de São João da Boa Vista (SP), que nunca mais deixaria a Terra Vermelha. Ao mesmo tempo, seu coração se tornaria eternamente dependente de Londrina. "Até a morte, não sairei daqui", diz o veterano advogado.
Conversar com Dr. João Tavares é o mesmo que falar com um jovem ilustrado e inteligente. Suas palavras não são apenas lúcidas, mas também límpidas e organizadas, como uma carta bem escrita. A vantagem adicional é que, ao entrevistá-lo, também estamos falando diretamente com a história. João foi próximo de três grandes prefeitos londrinenses: Hugo Cabral, Milton Menezes e Hosken de Novaes. Homens que moldaram a cidade tal como a conhecemos hoje. "Hugo Cabral era um cearense que viveu e estudou na Suíça", diz Dr. João. "A sua visão de mundo era a visão de um cidadão suíço, e ele trouxe esse conhecimento para Londrina". Os mineiros Milton Menezes, de quem foi grande amigo, e Hosken de Novaes, de quem foi amigo e vice-prefeito, completam o trio de administradores notáveis da cidade. "Eles eram modelos de homens públicos, como não se vê mais", diz João, que foi vereador, presidente da Câmara e só não aceitou ser candidato a prefeito na sucessão de Hosken para dar prioridade à família e à advocacia.
Na infância, João conheceu a fome e a pobreza. "O primeiro presente que ganhei de meu pai foi uma enxada, aos 8 anos", conta. Em Londrina, João trabalhou como safrista, faxineiro, guarda-livros e contador. Completou os estudos secundários com o professor Zaqueu de Melo. Aprovado em Direito na Universidade Federal do Paraná, formou-se em 1956. Ao ganhar o seu primeiro salário como guarda-livros, aos 18 anos de idade, comprou uma coleção de Machado de Assis, depois os Clássicos Jackson. A leitura é uma de suas grandes paixões. "Leio sempre quatro livros ao mesmo tempo", diz o nosso Cavaleiro das Leis.
Mas o livro mais bonito é o da sua própria vida, João.
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