Neste final de semana vivi uma situação ao mesmo tempo prosaica, ridícula e curiosa. Ao cortar as unhas, feri-me levemente no polegar esquerdo. O ferimento infeccionou e o dedo ficou bastante inchado e dolorido, a ponto de me atrapalhar o sono noturno. Eis-me aqui, em pleno Dia da Paixão, às voltas com a unha do meu polegar, problema incomensuravelmente pequeno e bobo. O mundo à beira do abismo e o mané aqui preocupado com o dedinho. Ah, passa amanhã, Briguet!

Mas confesso a você, amigo leitor, que essa dorzinha me deu uma estranha alegria. Não é masoquismo, não. É a simples alegria de saber que sou eu, e não meu filho, quem está com o dedo machucado. Meu filho que, em 2017, faz aniversário na Páscoa.

O Livro do Gênesis conta que Deus fez a Abraão um terrível pedido: sacrificar seu o amado filho Isaac. No último instante, quando Abraão já havia erguido a faca para imolar o garoto, Deus ordena que ele pare: "Não estendas a tua mão contra o menino, e não lhe faças nada. Agora eu sei que temes a Deus, pois não me recusaste teu próprio filho, teu filho único" (Gn 22,12). Abraão já havia provado a sua fidelidade. Um cordeiro, preso pelos chifres na moita de espinhos, é oferecido em sacrifício no lugar de Isaac.

Imagem ilustrativa da imagem Ressuscita-me!
| Foto: Shutterstock



A passagem bíblica, no entanto, carrega uma verdade oculta: aquele cordeiro era Jesus. Deus compadeceu-se de Abraão e Isaac, mas ofereceu seu próprio Filho em sacrifício pela salvação da humanidade. Se um miserável pecador como eu sente-se alegre quando sente uma pequena dor no lugar do filho, como terá sido a angústia do Pai ao entregar o Filho para a mais abominável e dolorosa morte? A imaginação humana, mesmo a de um Beethoven ou Sófocles, é incapaz de vislumbrar sequer uma parte desse infinito mistério.

Às vezes, somos privados da luz que emana da Páscoa. Durante muito tempo voltei as costas a Deus, e nada, ou quase nada, dava certo em minha vida. Tudo me parecia uma só escuridão, um grande labirinto cuja saída fosse o abismo. Não apenas um dedo, mas toda minha alma estava infeccionada, porque não conseguia sair de si mesma, enrodilhada no egoísmo. De vez em quando, ainda via uma possibilidade de amor no meio do caos. Lembro-me de sonhar com meus filhos e irmãos não nascidos: todos tinham nome e rosto, mas permaneciam silenciosos.

Nesta Semana Santa, o filósofo Olavo de Carvalho escreveu: "A irreversibilidade do tempo é o dado mais sério da existência humana, o único em cima do qual se pode criar uma vida responsável e significativa". Ah, meu amigo Olavo, talvez só exista uma forma de escapar à clausura do tempo: chama-se perdão.

É por isso que nesta Páscoa, agradecendo pela vida de meu filho e pela família que me foi concedida de graça, faço a Deus o pedido do poeta russo: — Ressuscita-me! Não apenas agora, não apenas hoje, mas a cada instante em que puder ser dividido o tempo. Ressuscita-me, para que eu possa acordar um dia, e ouvir as vozes de todos que amei, e abraçar meus pais e meus filhos e meus irmãos, e contemplar a face da eternidade sem medo e sem tempo e sem morte. Ressuscita-me.

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