Imagem ilustrativa da imagem Ressurgirá
| Foto: UEL FM/Divulgação



Lembro-me de certa manhã na República da Humaitá em que acordei cedo, depois de uma noitada, e liguei o rádio. Uma linda voz feminina falava sobre Wolfgang Amadeus Mozart, um homem que precisou viver apenas 36 anos para mudar a história universal da música. Alguns anos depois daquela manhã de ressaca, transfigurada pela genialidade de Mozart, eu viria a conhecer pessoalmente a dona daquela voz. Seu nome, Fernanda Jiran.
Conheci a professora Fernanda Jiran ao trabalhar como repórter da área cultural em Londrina. Todo londrinense que ama a música, o cinema e a literatura vê em Fernanda uma das principais incentivadoras da alta cultura em nossa cidade. Durante 30 anos, ela liderou um trabalho persistente de formação de públicos para a música clássica, a arte lírica e os filmes e livros que se elevam acima do patamar de mero entretenimento. Fernanda não era simplesmente dona de uma bela voz, mas também um espírito e generoso, cuja missão era mostrar ao mundo o valor da beleza.
Fernanda me ajudou a ver Bach, Beethoven, Mozart, Haydn, Haendel, Vivaldi, Verdi, Villa-Lobos e outros não apenas como grandes compositores, mas, muito além disso, amigos e irmãos mais velhos que fazem a vida mais digna de ser vivida. As grandes obras da música universal nos fortalecem e entusiasmam nos momentos de angústia e dor, ao passo que nos tornam mais humildes e humanos nos momentos de alegria e sucesso. A música é um veículo da verdade: ela nos traz de volta à nossa medida mais real.
Moradora do Edifício Adma Caram, ao lado da Concha Acústica, Fernanda não apenas residia no coração de Londrina, mas era parte constitutiva de nossa alma. Sempre que eu a encontrava, falávamos sobre a cidade por ela tão amada. Sua figura elegante e simpática era um convite à conversação e à troca de ideias. Brincávamos sobre as constantes "paradas" do Relojão, o símbolo temporal de Londrina. "O Relojão parou de novo, Briguet!" "Não tem importância, Fernanda: mesmo parado ele acerta duas vezes por dia..."
Graças ao trabalho de um velho e excelente profissional dos ponteiros, o Relojão sempre volta a funcionar. E eu, na minha ingenuidade, achei que para sempre voltaria a encontrar Fernanda Jiran para conversar com ela. Infelizmente, não foi assim: o coração da amiga da cultura parou de bater na última quarta-feira, aos 85 anos de uma vida luminosa.
Dias atrás, citei uma cena do "Ensaio de Orquestra" para falar sobre um jovem violoncelista de Londrina. Agora, volto a me lembrar do filme de Fellini, especialmente da cena em que uma violinista diz: "Para onde vai a música quando termina de tocar?"
No caso da professora Fernanda Jiran, eu posso responder: a música de sua voz vai morar, a partir de agora, em nosso coração. Um dia, ressurgirá.

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