Quem são os intolerantes?
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 12 de setembro de 2018
Paulo Briguet 

Em outubro de 2015, um professor comunista e ex-candidato a presidente declamou um poema de Bertolt Brecht durante uma palestra numa universidade carioca. Os versos finais do poema diziam o seguinte:
"Agora escuta: sabemos
que és nosso inimigo. Por isso
vamos encostar-te ao paredão. Mas tendo em conta os teus méritos
e boas qualidades
vamos encostar-te a um bom paredão e matar-te
com uma boa bala de uma boa espingarda e enterrar-te
com uma boa pá na boa terra."
Aplaudido com entusiasmo pela plateia totalmente esquerdista, o militante prosseguiu:
"É assim que nós enfrentaremos os conservadores, é assim que vamos enfrentar os conservadores: radicalizando as lutas de classes. Mas qual vai ser nosso diálogo com esse setor, o setor conservador? Veja, o setor conservador é perigoso porque lança suas garras na consciência da classe trabalhadora. É nela que nós temos que nos defender contra essa ofensiva conservadora, e não o diálogo com eles."
Poucos meses depois daquela triste palestra, fui procurado pelo professor Gabriel Giannattasio, do Departamento de História na UEL. Ele me apresentou um novo e fascinante projeto: realizar em nossa universidade um ciclo de palestras e debates denominado "A Casa da Tolerância". Gabriel pretendia o oposto do que sugerira o palestrante do paredão; sua ideia era trazer intelectuais conservadores para um diálogo franco e democrático no ambiente universitário.
Durante o primeiro semestre, tudo correu bem com a Casa da Tolerância. O projeto, que teve o seu pré-lançamento com a exibição do filme "O Jardim das Aflições", documentário de Josias Teófilo sobre o filósofo Olavo de Carvalho, realizou duas bem-sucedidas palestras com o professor de filosofia e escritor José Fernandes Weber (da UEL) e o jornalista Eduardo Wolf, sobre os temas da intolerância no pensamento e nas artes. Houve pouca participação dos docentes da UEL, mas até aí tudo bem.
No segundo semestre, porém, quando estavam programadas as mesas de debate sobre temas polêmicos - ideologia de gênero, aborto, alfabetização e Escola Sem Partido -, os departamentos da área de humanidades recusaram-se a indicar professores que pudessem participar do evento. Acostumados ao monólogo, não quiseram sequer reconhecer a possibilidade de debater com a direita conservadora; optaram pela "espiral do silêncio". A intolerância da casa impediu a Casa da Tolerância.
Sobre esse lamentável episódio, o professor Gabriel Giannattasio escreveu um excelente artigo, intitulado "A intolerância e seus frutos podres", cuja versão integral vocês sete podem ler hoje no meu blog (www.folhadelondrina.com.br). O criador da Casa da Tolerância diz, com sabedoria: "A mão que segura o punhal hoje é a mesma que ontem se recusava a dialogar com quem pensa diferente. (...) O punhal surge quando damos as costas à palavra; a faca deixa, assim, de ser uma metáfora cortante para se tornar lâmina assassina."
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